Se você é educador e tem amigos da área, provavelmente já teve aquela conversa: café, um suspiro e a frase “às vezes penso em fazer outra coisa, mas nem sei por onde começar”. Eu já tive essa conversa dezenas de vezes, nos dois lados da mesa rs.
De um tempo pra cá, o assunto também passou a chegar por mensagem: gente que me acompanha e quer entender como foi minha transição e como é possível empreender na educação sem depender de um emprego fixo. Eu nunca me imaginei como uma conselheira neste assunto, mas como eu já repeti tanto essa conversa, resolvi organizar tudo aqui porque pode interessar outras pessoas!
Se você ainda não conhece minha história, ela está no post A treliça da minha carreira. Aqui eu quero falar menos de “de onde eu vim” e mais do que aprendi pelo caminho.
Empreender na educação: eu não saí por coragem (e tá tudo bem)
Workshop sobre IA na ABA Recife
Preciso começar com uma confissão. Se você acha que toda pessoa empreendedora acordou um dia e pediu demissão, esse não foi o meu caso. Sempre precisei de segurança na carreira. Por anos recebi convites para palestras e formações e fiquei ali, na beirada, sem coragem de me expor. Em 2024, depois de 18 anos na mesma empresa, a vida decidiu por mim.
Só que eu não comecei do zero naquele dia. Eu já tinha uma identidade visual, já era MEI e já fazia uns trabalhos por fora aqui e ali. Eu já estava investindo também em mostrar mais meu trabalho nas redes sociais (e essa etapa é muito difícil, mas também muito importante). Por isso, acredito que a transição de verdade acontece antes da saída. Nem todo mundo vai ter um empurrão (e nem precisa ser assim), mas dá pra preparar o terreno antes.
Como eu acabei empreendendo
Live com a Nova Escola
Quando eu saí do meu emprego, eu estava fazendo uma obra enorme em casa, morando na casa da minha mãe e estar desempregada não estava nos meus planos. Mas os meus planos também envolviam uma viagem para a Europa dois dias depois da minha demissão (sim, fui demitida logo antes das férias e com viagem marcada). E foi ótimo! Nada melhor do que ser triste na Europa, né? Hahaha. Brincadeiras à parte, depois que voltei comecei a tentar planejar meus próximos passos. Por alguns meses, agradeci pelo auxílio desemprego e pela rescisão de 18 anos. Até que recebi uma oferta de emprego. E quase caí pra trás. Era uma vaga presencial, 44h semanais, longe de casa e por um salário vergonhoso. E aí eu comecei a me preocupar. Mas foi aí também que os primeiros contatos para trabalhos freela surgiram. E eu dei a “sorte” de pegar de primeira um projeto de 6 meses. Digo sorte assim entre aspas porque na verdade quem me contratou já conhecia meu trabalho. E confiava na minha entrega. E ali eu percebi que talvez o meu caminho fosse outro, que não um novo emprego CLT…
O ano do sim: o que aprendi no meu primeiro ano empreendendo
No meu primeiro ano empreendendo, tomei uma decisão: eu não ia dizer não para nada. Foi o meu “ano do sim”. Convite para palestra, formação, consultoria, projeto… a resposta era sim.
Trabalhei muito. Muito mesmo (e nem sempre ganhando bem, vamos ser honestas rs). Mas foi um dos anos mais importantes da minha transição, porque eu só descobri do que gostava experimentando, e só descobri do que não gostava fazendo. Quando você sai de um emprego fixo, tem muita ideia na cabeça sobre o que “deveria” gostar de fazer. O ano do sim tirou várias delas do papel e derrubou outras.
Um exemplo: aceitei um trabalho de gestão de projetos e, na prática, percebi que aquela não era a minha área. Depois de tanto tempo em cargo de gestão, percebi que não era aquilo que eu mais gostava. Detesto reuniões, detesto coisas burocráticas e administrativas. Eu gosto mesmo de criar, de dar aula. Eu poderia ter entregado no automático e seguido em frente, mas fui honesta sobre isso com minha chefe na época. E antes que o período de experiência finalizasse, tive uma conversa super honesta com ela. Essa honestidade acabou rendendo uma parceria que dura até hoje. Continuo fazendo freelas com a mesma empresa, agora trabalhando nas áreas que eu curto: criando cursos, formações, facilitando oficinas, dando palestras…
Se você quiser fazer o seu próprio ano do sim, dois cuidados que eu considero importantes:
- Dê um prazo. Dizer sim a tudo funciona como fase de experimentação, não como estilo de vida. Sem data para acabar, vira exaustão.
- Anote cada experiência. Depois de cada trabalho, registre o que gostou, o que não gostou e quanto ganhou pelo tempo investido. Isso transforma o “sim” em informação e conversa direto com a organização financeira, que falo mais abaixo.
Quais caminhos existem além da sala de aula?
Gemini on Campus no IBMEC
Uma pergunta que sempre aparece: “sair da sala de aula e ir para onde?”. Na minha experiência, o campo é bem mais amplo do que parece:
- formação de professores (cursos curtos, formações longas, palestras e oficinas)
- design instrucional e criação de cursos online
- consultoria para escolas e redes de ensino
- criação de conteúdo educacional
- coordenação pedagógica
Não é uma lista fechada, e você não precisa escolher só um. A treliça permite vários caminhos ao mesmo tempo. E foi o ano do sim que me ajudou a descobrir quais desses caminhos faziam sentido para mim.
Curiosidade, flexibilidade e resiliência: o tripé de quem quer mudar de carreira
Sei que parece lista de vaga do LinkedIn, mas escuta essa parte que é importante.
Curiosidade foi o que me levou a usar tecnologia, realidade virtual, cultura maker e IA nas aulas muito antes de virarem assunto. Não era estratégia de carreira, era vontade de experimentar. Só depois entendi que era a minha maior vantagem.
Flexibilidade é aceitar que carreira não é escada, é treliça: você muda de rota, de público, de formato. Eu já fui figurinista de cinema, professora de inglês, coordenadora acadêmica, coordenadora de tecnologias educacionais e agora sou quase um camaleão se pensar em tantas frentes que eu atuo.
Resiliência é a que ninguém quer ouvir, mas é a que segura. Vão existir meses bons e meses silenciosos, propostas que não fecham e “nãos” que doem (eu nem passei de primeira na seleção da escola que eu tanto queria, e olha onde estou rs).
Estudar: o que sustenta a autoridade de quem sai da sala de aula
Curso IA & Aprendizagem com a Camila Leporace
Quem sai da sala de aula tem uma tentação: achar que já sabe tudo de educação e só precisa “aprender a vender”. Mas o que sustenta a sua autoridade é continuar estudando, tanto na sua área quanto nas vizinhas: design instrucional, gestão, marketing, finanças, tecnologia. Não que você precise fazer mais um curso ou ter mais uma formação, não é isso. É se manter atualizado, ser curioso. E quando eu digo estudar, vale ler artigos, ler livros, assistir vídeos no YouTube, ir a conferências etc.
Mas estudar não é colecionar certificado. É estudar para resolver um problema real que você já enxerga ou para se atualizar em algum assunto que você curta. Comigo, por exemplo, foi a inteligência artificial. Eu comecei a estudar IA lá em 2020, pensando em como trazer isso pra sala de aula de inglês. Quando chegou o ChatGPT no final de 2022, eu já tinha um bom conhecimento sobre IA. E isso me ajudou muito a ter autoridade no assunto.
Entrega de excelência: a melhor propaganda do educador autônomo
Painel na BETT Brasil 2026
Quando você é autônoma, não existe o crachá de uma instituição por trás de você. O que existe é a última coisa que você entregou. E as oportunidades vêm, na maior parte das vezes, por indicação: alguém participou de uma formação ou te contratou, gostou e te recomendou.
Por isso prefiro entregar menos e entregar bem: cumprir prazo, adaptar ao contexto de quem contratou, pedir feedback (mesmo com frio na barriga) e fechar o ciclo. Um bom trabalho para uma escola pequena hoje pode virar a indicação para uma rede inteira amanhã.
Networking e comunidades de educadores: os nós da treliça
Se a carreira é uma treliça, as pessoas são os nós. Nada do que construí foi sozinha. Entrar na comunidade Google for Education e, depois, liderar o Grupo de Educadores Google do Rio de Janeiro me deu algo que nenhum curso dá: gente para trocar, errar, aprender e lembrar de mim quando surge uma oportunidade. Eu conto mais dessa história em ISTE: minha história com a maior conferência de tecnologia educacional do mundo.
Networking, para mim, não é distribuir cartão em evento. É ser generosa: compartilhar o que você sabe, indicar colegas, aparecer para ajudar. Se você ainda não faz parte de nenhuma comunidade de educadores, eu recomendo fortemente. Frequente eventos da sua área, se apresente às pessoas, conte sobre o seu trabalho e troque ideias.
Organização financeira para autônomos: a parte chata
Mas é preciso ser honesta aqui: a parte mais glamourosa de empreender é a menos importante. A que decide se você continua é a financeira.
Quem vem de um emprego com carteira assinada está acostumado com o salário caindo todo mês. Como autônoma, a renda vira uma montanha-russa, e ninguém nos ensina a lidar com isso. No meu ano do sim, nem sempre ganhei bem, e é por isso que reserva e custo de vida mínimo fazem tanta diferença. Alguns pontos que eu considero essenciais (vale conversar com um contador ou planejador financeiro sobre o seu caso, porque eu não sou especialista na área):
- Separe o dinheiro pessoal do dinheiro do negócio, nem que seja com duas contas ou dois controles diferentes.
- Conheça o seu custo de vida mínimo. Saber quanto você precisa por mês define o quanto você pode arriscar.
- Monte uma reserva antes de sair, se puder. Muita gente recomenda ter alguns meses de despesas guardados, porque o começo costuma ser irregular.
- Precifique além da hora de aula. Preparação, ferramentas, impostos, meses sem trabalho e descanso entram no preço, ou você se sacrifica sem perceber.
- Entenda a parte burocrática e tributária: tipo de empresa, emissão de nota e impostos. As regras mudam, então confira sempre as informações atualizadas.
Por onde começar a buscar outros caminhos na educação?
Se tem uma coisa que eu queria que você levasse desse texto é que você não precisa ter tudo resolvido para começar. Dá para ir explorando enquanto ainda está na sala de aula: estudando, conversando com gente da área, testando uma formação, construindo uma reserva, tudo ao mesmo tempo e um passo de cada vez.
E você? Já pensou em empreender na educação ou buscar outros caminhos? Qual é a sua maior dúvida (ou medo) nessa transição? Me conta aqui nos comentários, que eu adoraria continuar essa conversa (e talvez virar um próximo post rs).
PS: Se o seu caminho passa por entender melhor a IA na educação, seja para usar na prática, seja para formar outras pessoas, o meu curso IA para Educadores: Entenda, Use e Ensine foi feito para isso: com ética, segurança e menos sobrecarga, mesmo que você não seja “da tecnologia”.





