Assim que vi o lançamento d’O Documentário da IA: Ou Como Me Tornei Otimista Diante do Apocalipse fiquei curiosa para assistir. Mas antes que eu conseguisse assistir, já comecei a ver algumas críticas. E foi aí que eu quis mais ainda assistir e baixei para assistir na última viagem que fiz.
A Netflix lançou o documentário agora em setembro, dirigido por Daniel Roher e Charlie Tyrell, que usam o tema para investigar que tipo de mundo as crianças de hoje vão herdar. O título original inventa uma palavra, apocaloptimist, meio apocalíptico e meio otimista.
Mas vamos por partes, porque o filme acerta em vários pontos, mas erra num ponto que, para quem trabalha com educação, faz toda a diferença.
Tudo começa com um pai com medo
O ponto de partida do filme é Roher prestes a ser pai, tentando entender em que mundo o filho vai nascer. A pergunta no centro do filme é, literalmente, se vale a pena ter filhos na era da IA.
Eu não tenho filhos, mas essa é uma pergunta que eu penso bastante. Porque eu, pessoalmente, não consigo pensar em colocar uma criança num mundo tão doido quanto o que vivemos hoje. E além disso, é uma pergunta que faz muito sentido para educadores: para que mundo eu estou preparando meus alunos?
A estrutura do filme passa por três grupos: os pessimistas (Eliezer Yudkowsky, Ajeya Cotra, Yoshua Bengio, entre outros), os otimistas (como Reid Hoffman) e os CEOs (Demis Hassabis, Daniela e Dario Amodei, Sam Altman), atravessando uma montanha-russa emocional que vai da preocupação extrema a um otimismo delirante até chegar a uma convicção esperançosa. O codiretor Charlie Tyrell explicou que essa ordem imita o que acontece quando alguém começa a pesquisar sobre IA: primeiro você encontra o conteúdo apocalíptico, depois o contraponto aceleracionista.
É exatamente o percurso de muito professor que eu conheço: o pânico da manchete, o deslumbramento do webinar, e só depois, com sorte, o critério.
O que o filme faz bem
O filme mistura entrevistas com stop motion, animação e ilustração, e reúne mais de 40 especialistas. É um filme bem interessante e atrativo, para quem nunca parou para pensar no assunto, funciona como porta de entrada.
E tem momentos honestos que valem o filme. Dario Amodei admite que não tem certeza de que tudo vai dar certo, e Hassabis diz, de forma vaga, que se algo é possível, a humanidade vai fazer. Pensa comigo: são as pessoas que estão construindo a tecnologia admitindo que não controlam o rumo dela. Isso por si só já é material para uma aula.
Mas sempre tem um contraponto né…
O problema começa na própria estrutura. Quando um filme organiza as vozes entre quem tem medo e quem tem esperança, ele transforma um debate sobre evidências num desfile de opiniões. No fim, as previsões sobre o futuro da IA parecem depender apenas de quem está olhando.
A crítica mais recorrente ao filme é também a que mais me pega. Muitos resenhistas apontaram que o documentário é condescendente demais com os entrevistados e raso em contestação. A primeira metade do filme parece uma propaganda longa das previsões mais hiperbólicas, justamente por deixar pessimistas e aceleracionistas falarem quase sem questionamento.
E aqui o meu olhar de Estudos da Linguagem não me deixa em paz. Na Análise do Discurso, a gente aprende que nenhum dizer é neutro: todo discurso tem condições de produção. Quem fala, de onde fala, e o que ganha com aquilo que está dizendo. O filme apresenta as vozes, mas quase nunca mostra essas condições. Especialistas, pensadores, CEOs das Big Techs, todos dão suas opiniões sem nenhuma checagem de fato ou peso diferente nas falas. Mas poxa, como comparar a fala de um especialista ou pensador com a de um CEO de uma empresa que ganha dinheiro com IA?
Vamos combinar que juntar muita gente não é o mesmo que equilíbrio quando uma cientista parece com o mesmo peso de vozes muito mais especulativas. Afirmações passam sem checagem e questões como viés, custo ambiental dos data centers e impacto econômico ficam em segundo plano. Enquanto isso, o fim do mundo ganha os holofotes.
Tem ainda um momento que me incomodou particularmente como educadora: um dos participantes tem uma visão tão sombria que chega a desaconselhar que as pessoas tenham filhos. Imagina um adolescente assistindo a isso sem mediação nenhuma.
O “apocaloptimismo” é, no fundo, uma postura pedagógica
Tirando o marketing do título, ser apocaloptimist é recusar os dois extremos: nem o pânico que leva a banir tudo sem formar ninguém, nem o deslumbramento que leva ao piloto automático. Ou seja, é o espaço do equilíbrio: usar a ferramenta sem terceirizar o pensamento.
O filme é muito bom no ensinar PARA a IA (que futuro nos espera?) e razoável no SOBRE (como isso funciona, quem está construindo). O que falta é o COM crítico do dia a dia, o professor diante de uma resposta errada dita com toda a confiança, o aluno que acha que o chatbot o entende. O futuro da IA não vai ser decidido só em laboratório no Vale do Silício. Ele também está sendo decidido na sala de aula, toda vez que alguém aceita ou questiona uma resposta.
Vale usar em sala?
Vale, mas como objeto de análise. A minha sugestão é assistir em trechos, um de cada grupo (pessimistas, otimistas, CEOs), e aplicar a cada voz quatro perguntas:
1. Quem está falando?
2. Com base em que evidência?
3. Quem financia essa voz?
4. O que ficou de fora?
A última pergunta é a mais rica, porque leva a turma a notar os danos que já existem hoje e as vozes que não aparecem no filme. E uma ausência me chamou atenção em especial: um documentário que parte da pergunta “em que mundo meu filho vai crescer?” não ouve nenhum educador. Dezenas de especialistas, CEOs, pesquisadores… e ninguém que trabalhe com as crianças que vão crescer nesse mundo.
Só um cuidado com a faixa etária: classificação 12 anos no Brasil. Algumas falas são pesadas, e com os mais novos a mediação é inegociável.
Isso é letramento em IA na prática. Em vez de focar em decidir se a IA é boa ou ruim, é mais importante aprender a avaliar quem está contando a história dela.
No fim das contas, o filme me lembrou por que o letramento crítico importa tanto: diante de 40 especialistas que discordam entre si, a única defesa que a gente tem é saber perguntar quem está falando, e por quê.
E você, já assistiu? Saiu de lá mais apocalíptica, mais otimista, ou com vontade de pausar e perguntar “mas quem tá pagando essa pessoa?” rs. Me conta aqui nos comentários.




