TIC Educação 2025: o que os números revelam sobre a IA nas escolas (e nos alunos) brasileiros

Enquanto a gestão escolar corre pra adotar IA, os alunos já foram na frente sozinhos

Semana passada eu passei um tempo nos slides da coletiva de imprensa da TIC Educação 2025, do Cetic.br/NIC.br. Eu adoro pesquisas, e uso muito nas minhas aulas e palestras, para que a gente entenda um pouco mais sobre a realidade do uso de IA, principalmente pelas crianças e adolescentes. E aí eu usei o Claude para me ajudar cruzar os dados da TIC Educação 2025 com duas pesquisas internacionais que saíram recentemente e que incluíram o Brasil, uma da UNICEF e outra do Digital Wellness Lab (Boston Children’s Hospital). A ideia era ver onde eles se cruzam, e onde eles se contradizem.

E foi aí que a coisa ficou interessante. Porque quando você põe os três lado a lado, um retrato bem específico do Brasil aparece: somos, de longe, o país mais entusiasmado com IA entre os estudados, os alunos já estão anos luz à frente do que a escola formalizou, e a gestão escolar está adotando IA mais rápido do que está ensinando sobre ela.

O Brasil não é só mais um país nesses estudos

O Digital Wellness Lab ouviu quase 3.000 adolescentes de 13 a 17 anos no Brasil, na França e nos EUA, e o resultado é que os adolescentes brasileiros são, disparados, os usuários mais frequentes, mais engajados e mais otimistas com IA dos três países.

46% dos adolescentes brasileiros usam chatbots de IA todos os dias (contra 36% nos EUA e só 20% na França), e boa parte deles começou a usar há menos de seis meses. A adoção não foi apenas rápida, foi vertiginosa. 70% dizem que a IA é moderada ou muito importante no dia a dia deles, quase o dobro dos outros dois países, e 68% acreditam que o impacto da IA sobre os jovens é positivo (contra 43% nos EUA e 39% na França).

Isso confirma o que a OCDE já apontou: países emergentes tendem a confiar mais na IA generativa, muitas vezes com a expectativa de usar a tecnologia para alcançar países mais desenvolvidos. E isso não é ruim por si só, o otimismo tecnológico pode ser um motor e tanto. O problema é o que vem (ou não) junto dele.

A gestão escolar está na frente, a sala de aula está atrás

E aqui a TIC Educação 2025 entra e complica um pouco esse otimismo todo. Do lado da gestão, a adoção de IA generativa já é consistente: 53% dos gestores escolares brasileiros usam IA em atividades pedagógicas, administrativas ou financeiras da instituição. Eles usam principalmente para criar conteúdo audiovisual (83%), redigir comunicados (80%) e organizar atividades (75%).

Só que quando a pergunta muda de “a escola usa IA para gerir?” para “a escola permite que o aluno use IA para aprender?”, o número despenca: só 37% das escolas brasileiras permitem que os alunos utilizem IA em atividades educacionais. E apenas 22% dos gestores relatam que a escola tem um guia formal de orientação sobre o uso de IA no ensino, na aprendizagem e na gestão.

Ou seja: as escolas brasileiras estão usando IA pra facilitar a própria rotina mais rápido do que estão construindo uma política clara para o que o aluno pode (ou não) fazer com ela em sala. É o tipo de descompasso natural quando uma tecnologia nova chega rápido demais para a burocracia acompanhar, mas vale a atenção.

A IA já virou amigo

Voltando ao Digital Wellness Lab: 46% dos adolescentes brasileiros dizem usar IA para completar tarefas escolares inteiras, com frequência (o dobro dos EUA e da França). E mais: 44% usam IA para fazer roleplay, simular conversas ou praticar interações sociais, e 48% concordam que um chatbot pode servir como amigo.

Não é um dado isolado. É consistente com o que a UNICEF Innocenti encontrou em pesquisa que incluiu o Brasil entre os dez países estudados no projeto Disrupting Harm: crianças e adolescentes têm três vezes mais chance de já ter usado IA do que seus pais ou responsáveis. Isso cria o que a UNICEF chama de “divisão de IA dentro da própria família”: o adulto responsável simplesmente não está no mesmo nível de familiaridade com a ferramenta que a criança já está.

Um aluno que trata o chatbot como amigo, ou que terceiriza a tarefa inteira sem saber fazer diferente, claramente não está ciente dos riscos de uso e nem está preocupado em fazer um bom uso da IA. E ele chegou lá sozinho, sem nenhuma mediação, nem da escola, porque a escola, como vimos no ponto anterior, ainda não formalizou essa conversa, nem da família, que ainda não conseguiu entender bem essa nova realidade.

O letramento existe, mas é raso, e a checagem quase não acontece

A boa notícia (relativa) é que a maioria dos adolescentes brasileiros e americanos diz ter recebido alguma orientação sobre uso de IA: 71% dos brasileiros relatam ter aprendido “como usar IA de forma eficaz”. O problema é o que fica de fora dessa orientação: o tema menos trabalhado, nos três países, foi justamente o entendimento de viés (59% no Brasil, o mais alto dos três, mas ainda o item mais fraco de toda a lista).

E o reflexo disso aparece num dado importante: apenas 50% dos adolescentes brasileiros checam com frequência as informações que recebem de um chatbot em outras fontes. Ou seja, metade confia e segue em frente.

Voltando pra TIC Educação: o dado de que 60% dos gestores relataram ter reuniões sobre regras de uso de ferramentas de IA (contra 40% no ano anterior) mostra que o tema está subindo na pauta da gestão, e rápido. Mas discutir regra é bem diferente de ensinar a pensar criticamente sobre a resposta da IA. São etapas distintas, e a segunda ainda está bem atrás.

Por que isso me interessa tanto

Juntando os três estudos, o que eu vejo é que o Brasil não tem um problema de adoção, tem um problema de sequência. Os alunos adotaram a IA antes da escola construir a estrutura de letramento . E isso é exatamente o oposto do que deveria estar sendo feito, como já diz o referencial do MEC e eu também falei sobre no post sobre educar COM, SOBRE e PARA a IA: usar a ferramenta sem entender como ela funciona, e sem refletir sobre o papel dela na vida do aluno, é abrir mão do único filtro que protege alguém, que é o pensamento crítico.

A gente já discutiu aqui como a IA que entrega a aula pronta é um problema quando vira piloto automático, e os dados dessa vez mostram que o mesmo risco existe do outro lado da sala: o aluno também pode estar em piloto automático, só que sem ninguém te avisando.

O que dá pra fazer, na prática!

  • Formalizar o que já é informal. Se 53% dos gestores já usam IA e só 22% das escolas têm um guia, o primeiro passo não é “decidir se vamos usar IA”, é documentar o que já está acontecendo.
  • Observar o uso social e emocional da IA pelos adolescentes com atenção redobrada. Quando quase metade dos jovens vê o chatbot como potencial amigo, isso não é curiosidade estatística, é um sinal de que a conversa sobre IA precisa incluir bem-estar socioemocional, não só desempenho acadêmico.
  • Priorizar viés e verificação de fontes no letramento, não só “como usar a ferramenta”. É a lacuna mais consistente nos três países
  • Trazer a família pra conversa, porque a “divisão de IA” que a UNICEF descreve só se resolve com letramento cruzando gerações, não só dentro da escola.

Não à toa, é exatamente esse cruzamento entre uso, letramento e bem-estar que eu trago no curso IA para Educadores: Entenda, Use e Ensine, porque a pergunta nunca foi “usar ou não usar IA na escola”. A IA já está lá há tempos. A pergunta é: quem está ensinando o aluno a pensar sobre ela?

Na última semana, estive na Escola Eleva para uma conversa com os pais, que só reforçou o que falei até aqui. Os pais ainda não sabem como lidar com a IA e nem com o uso de IA pelos seus filhos. Foi uma conversa com muitas dúvidas e perguntas. Ainda dá tempo de retomar o que faltou pelo caminho!

E você, na sua escola ou na sua sala, sente esse mesmo descompasso entre o que os alunos já fazem com IA e o que a instituição formalizou? Me conta aqui nos comentários.

Fontes

Compilado de artigos

Guia Básico: IA para Educadores

Um percurso completo, dos fundamentos da IA à prática em sala de aula, para que você não apenas acompanhe essa transformação, mas a lidere com propósito e segurança.

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Roberta Freitas

Professora

Roberta é educadora com foco em tecnologia educacional e interesse em novas tecnologias, inovação, gestão e capacitação de professores. Mestre em Estudos da Linguagem, graduada em Letras. Google Innovator, Google Trainer e líder do Grupo de Educadores Google do Rio de Janeiro. Atua no ensino de língua inglesa há mais de 15 anos e se especializou em integração de tecnologia educacional no currículo. Tem experiência e interesse em design instrucional, capacitação de professores, ensino remoto e híbrido, metodologias ativas, ensino de idiomas, integração de tecnologia educacional, cultura maker, realidade virtual e aumentada e inteligência artificial. É fã de moda, viagem e gastronomia.

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