Se você me acompanha por aqui ou nas redes sociais, já sabe que eu adoro voltar de um evento com a cabeça fervilhando e transformar isso em post rs. Dessa vez o evento foi bem pertinho de casa: o Rio Innovation Week, que aconteceu entre os dias 4 e 7 de agosto no Píer Mauá, no Rio.
Para quem não conhece, o RIW é hoje considerado o maior evento de tecnologia e inovação da América Latina. Só para dar uma dimensão: essa foi a sexta edição, com 16 trilhas de conteúdo, cerca de 40 palcos, mais de 60 conferências e mais de 3 mil palestrantes de cerca de 20 países, recebendo uma expectativa de 200 mil visitantes ao longo dos quatro dias. O tema desse ano foi “Simbiose: o futuro não acontece isolado”, um convite a pensar a inovação como fruto de colaboração entre setores, disciplinas e países, em vez de soluções isoladas.
Só que, como sempre, é impossível ver tudo (lembrando: 40 palcos simultâneos!). Então preciso fazer um recorte aqui logo de cara: eu foquei minha ida na trilha de educação e futuro do trabalho, então tudo o que eu trago abaixo é sobre o que vi ali, e não uma cobertura geral do evento, que também teve trilhas fortes de IA, robótica, saúde, economia criativa, ESG e por aí vai. Dito isso, bora para os aprendizados.
O maior problema não é a falta de IA, é a falta de letramento crítico
Logo na primeira sessão que assisti, “Quem Explica a Máquina?”, um dado me chamou atenção: a maioria das pessoas diz que sabe o que é IA, mas não consegue explicar. E olha que 93% delas usam algum aplicativo com IA embutida no dia a dia. Ou seja: a gente usa muito e entende pouco.
Como já tenho visto em muitas palestras e conferências, eles trouxeram mais uma vez a analogia com a eletricidade. Quando ela chegou, as pessoas precisaram aprender, na prática (às vezes com choque literal), que colocar o dedo na tomada dói. Estamos nesse mesmo momento com a IA, só que com o agravante da velocidade de difusão que é muito maior. A gente mal tem tempo de refletir se quer ou não usar antes de já estar usando.
E teve um recado direto sobre sycophancy (termo novo para mim: a tendência da IA de bajular, concordar e validar o que você diz): dá para pedir para ela não fazer isso. Simples assim, e eu confesso que nunca tinha parado para pensar em incluir esse pedido nos meus prompts.
Esse tema voltou com força em outra sessão, “Amnésia Corporativa: como usar IA sem emburrecer o time”, com a Vanessa Mathias. Ela trouxe um estudo da Microsoft em parceria com a Carnegie Mellon que eu achei bem incômodo (no bom sentido): quem mais confia nas respostas da IA é quem mais perde capacidade de aprender. Quanto mais a gente desconfia, melhor tende a ser o resultado. Quanto mais conveniente a ferramenta, menos a gente aprende. E quando existe fricção, a gente aprende mais.
Isso conversa direto com algo que eu já sempre falo por aqui: a IA como apoio, não como piloto automático. Letramento crítico não é saber operar a ferramenta, é ser capaz de olhar além do marketing dela: entender quem faz, quem se beneficia, e por que a narrativa de “é inevitável, todo mundo já usa” convém tanto a quem vende a ferramenta.
A IA é uma moeda: tem dois lados, e a gente precisa saber girá-la
Na palestra do Pedro Cortella, “Educação em tempos de algoritmos”, apareceu um modelo do MIT Sloan que resume bem esse equilíbrio: o EPOCE (Empathy and Emotional Intelligence, Presence/Networking/Connectedness, Opinion/Judgment/Ethics, Creativity and Imagination, Hope/Vision/Leadership) como competências humanas que a IA tende a complementar, não substituir.
A metáfora que ele usou foi a de uma moeda: a IA generativa tem dois lados, e o nosso trabalho não é ficar só de um lado nem do outro, é manter ela girando, equilibrada. Não dá para satanizar a ferramenta, mas também não dá para adotar sem questionar. É basicamente o educar COM, SOBRE e PARA a IA que eu sempre falo aqui, só que em outras palavras (e uma imagem ótima para usar em sala de aula, aliás).
Antes de falar de tecnologia, a gente precisa falar do humano (e da nossa solidão)
Duas sessões, aparentemente bem diferentes entre si, se encontraram exatamente nesse ponto para mim.
A primeira foi “IA antes da IA”, com uma indígena tupinambá, um monge budista e uma jornalista conversando sobre o que a sabedoria ancestral tem a ensinar antes mesmo de discutirmos ferramenta. A frase que ficou martelando na minha cabeça: toda tecnologia deveria ajudar a elevar a consciência humana, nos tornar seres humanos melhores. E teve uma reflexão sobre o wabi-sabi, a valorização do antigo e do ancestral, que eu achei um contraponto bonito ao discurso de “o novo é sempre melhor” que normalmente domina o mundo da inovação.
A segunda foi “Por que as relações importam tanto na era da IA?”, com a Carol Romano, que trouxe um dado difícil de ignorar: estamos vivendo uma epidemia mundial de solidão, e a solidão crônica equivale, em termos de risco à saúde, a fumar 15 cigarros por dia. O brasileiro passa mais de 9 horas online, sendo 3 delas em redes sociais, e a crise não é só de qualidade das relações, é de quantidade mesmo: estamos perdendo tempo de interação real.
O que eu achei mais valioso foi a citação do Projeto Aristóteles, do Google: os times de mais alta performance não eram os mais “inteligentes”, eram os que tinham desenvolvido vínculos de confiança para além do trabalho. Traduzindo para a escola: se a gente está tão preocupado em preparar aluno para o futuro do trabalho com IA, talvez a competência mais subestimada continue sendo a de construir relação de verdade com outro ser humano. Nenhuma ferramenta substitui isso, e cada vez mais vai ser isso que vai nos diferenciar.
A criatividade também está sendo tomada por bots (e isso devia nos preocupar como educadores)
Na sessão “Criatividade infinita ou feeds entupidos?”, o Paulo Fernando Aguiar trouxe um ponto interessante sobre criação com IA: a pergunta não é mais “qual ferramenta você usou”, é “como você usa”. A ferramenta mais importante hoje, segundo ele, é a linguagem: aprender a conversar com a IA de forma natural, em vez de tentar replicar lógicas antigas (tipo aprender Photoshop para gerar uma imagem).
Só que o mesmo painel trouxe um dado que me deixou assustada: mais da metade do tráfego da internet hoje é feito por bots, e só em 2026 já foram 63 bilhões de visualizações em conteúdo “AI slop” (aquele conteúdo gerado em massa com IA, sem curadoria humana de verdade). Existem mais de 78 perfis de “profetas sintéticos” vendendo ebook nas redes sociais, e o monge com mais seguidores do mundo hoje… é uma IA.
Trouxe isso para cá porque acho que é um recado importante para quem trabalha com educação digital e midiática: a gente vem ensinando os alunos a identificar fake news, mas o próximo desafio é ensinar a reconhecer quando quem está do outro lado nem é gente. E também um recado para nós, criadores de conteúdo: quanto mais a internet se enche de slop, mais valiosa fica a voz genuinamente humana, com ponto de vista e vivência real por trás. Ninguém troca isso por um perfil sintético, por mais otimizado que ele seja.
A IA não é neutra, e pode aprofundar desigualdades que já existiam
Por fim, uma reflexão da sessão “Do cérebro humano ao artificial” que eu não quero deixar passar batido: a IA não processa a realidade diretamente, ela processa registros da realidade, e esses registros já vêm com recortes, vieses e ausências. Os grandes monopólios de tecnologia estão concentrados em poucas mãos, e isso significa que comunidades inteiras (indígenas, quilombolas, mulheres negras, entre outras) seguem sub-representadas nos dados que treinam essas ferramentas.
A provocação que ficou foi: nós somos co-construtores dessa tecnologia, participamos tanto do que ela tem de bom quanto do que ela pode reproduzir de ruim. E na educação isso pesa duplamente, porque a IA generativa tende a responder pela média. Se você quer formar alunos capazes de pensar fora da média, de serem exceção, o trabalho pedagógico não pode delegar isso para a ferramenta.
Em suma…
O Rio Innovation Week não me deixou mais deslumbrada com IA, me deixou mais convencida de que o trabalho real é humano. Foi bonito ver um evento gigante de tecnologia e negócios reservando espaço de palco para um monge falando sobre impermanência, para dados sobre epidemia de solidão, e para um alerta sobre desigualdade nos dados que treinam os modelos. E mais, o evento trouxe para os palcos pessoas que escolhem não usar IA no seu dia a dia para falar justamente sobre IA, e foram conversas muito ricas. É muito gratificante ver que estamos chegando em um ponto de equilíbrio nas conversas sobre IA, sem pânico ou deslumbramento.
Agora me conta: desses 5 pontos, qual foi o que mais te fez pensar? E qual parece mais distante da realidade da sua escola? Deixa aqui nos comentários que eu quero muito saber 👇
PS: Se você quer construir esse letramento crítico em IA com mais profundidade, com uma abordagem prática e centrada no humano, dá uma olhadinha no meu curso IA para Educadores: Entenda, Use e Ensine.




