No último post, Por que a IA ficou fofa?, eu falei sobre como as big techs estão vestindo seus assistentes com olhos grandes, cores suaves e vozes simpáticas. E terminei com uma preocupação: se a fofura funciona tão bem com adultos, o que ela faz com uma criança?
Pois é. Não precisei esperar muito pela resposta. Os lançamentos de Natal vieram com tudo e a Estrela lançou o Zoby I.A, apresentado como o primeiro boneco com inteligência artificial integrada do Brasil. Indicação: a partir de 3 anos. É um bonequinho alienígena, de olhos enormes, que conversa, conta histórias e tira dúvidas.
Então este post é uma continuação direta do anterior: a IA fofa saiu da tela e foi parar no quarto das crianças. Vamos entender o que isso significa antes de embrulhar esse presente.
O Zoby: o que a caixa promete e o que ela não conta
O Zoby foi lançado pela Estrela na Abrin 2026, a maior feira de brinquedos do país, em março. Segundo a feira, ele responde perguntas, conta histórias personalizadas e estimula a linguagem e o pensamento crítico. O diretor de marketing da Estrela resumiu o lançamento como a união de inovação, interação significativa e responsabilidade.
Fui conferir a página do produto. Ela diz que o Zoby é um boneco de vinil “equipado com um módulo de Inteligência Artificial”, que vem com cabo de carregamento, custa R$ 799,99 (ou R$ 759,99 no Pix) e funciona junto com um aplicativo, o Zoby App. Classificação: +3 anos. Usos indicados: entretenimento, socialização e educação.
Agora, o que eu não encontrei na página:
- Qual IA está por trás. É um modelo próprio? É o ChatGPT, o Gemini, outro? Não diz.
- Como ele se conecta. Wi-fi, Bluetooth pelo celular? Não diz.
- Se o microfone fica sempre ligado ou só quando a criança aperta algo. Não diz.
- Para onde vão as conversas da criança, por quanto tempo ficam guardadas e quem tem acesso. Não diz.
- Que controles os pais têm. Não diz.
E aí eu fui além da página (porque, vocês sabem, eu não paro na manchete). Na ficha do app na Google Play, desenvolvido pela Overleap Studio, de Belo Horizonte, a seção de segurança de dados informa que o app pode coletar localização e informações pessoais, além de outros tipos de dados. Informa também que os dados são criptografados em trânsito, não são compartilhados com terceiros e que é possível pedir a exclusão.
O link de privacidade do app leva à política geral da Estrela. E aqui mora o estranhamento: a política foi atualizada pela última vez em setembro de 2024, antes do Zoby existir. Ela não fala de voz, de IA nem de brinquedos conectados. E afirma que a empresa não solicita a coleta de dados de crianças e adolescentes. Um boneco que conversa com crianças de 3 anos, sem nenhuma linha sobre o que acontece com o que elas dizem.
Quero deixar claro: eu não estou dizendo que o Zoby faz algo errado. Estou dizendo que eu não consigo saber. E se eu, que estudo isso todos os dias, não consigo, imagina a família que vai comprar na correria de dezembro.
O aplicativo dos pais: o que ele mostra e o que ele revela
O Zoby não funciona sozinho. Ele precisa de um aplicativo instalado no celular de um adulto, e foi na página do Zoby App na App Store que eu encontrei algumas respostas que não estavam na caixa. Segundo a descrição, é pelo app que pais e responsáveis:
- conectam e configuram o brinquedo;
- ajustam o volume;
- acompanham o histórico de conversas da criança com o Zoby;
- consultam o que o Zoby aprendeu nas interações.
Vou ser justa: isso é um ponto positivo. Muitos dos brinquedos testados lá fora não davam aos pais nenhuma forma de saber o que a criança conversou. Poder ler o histórico responde a uma das perguntas que a própria SBP recomenda fazer antes da compra. Transparência para a família é o mínimo, e o Zoby parece entregar esse mínimo.
Mas é preciso ler essa lista com atenção…
Se existe histórico, as conversas estão guardadas
Para aparecer no app dos pais, a conversa da criança precisa ser registrada em algum lugar. No celular? Num servidor? Por quanto tempo? Como áudio ou só como texto? Os pais conseguem apagar uma conversa específica ou só a conta inteira? Nada disso está explicado nas páginas das lojas, nem na política de privacidade da Estrela.
“O que o Zoby aprendeu” é um perfil da criança
Essa é a frase que mais me chamou atenção. Se o boneco “aprende” com as interações, ele está guardando informações sobre quem conversa com ele: do que gosta, do que tem medo, o nome do cachorro, o nome da professora. Isso pode deixar a brincadeira mais personalizada, claro. Mas, na prática, é um perfil de uma criança de 3 anos sendo montado aos poucos. E o ECA Digital pede justamente o contrário: coletar o mínimo possível.
Duas lojas, duas listas diferentes
Nas lojas de aplicativos, é o próprio desenvolvedor que declara quais dados coleta (a Apple avisa que não verifica essas informações). E as duas declarações do Zoby App não batem.
Na App Store, o desenvolvedor informa que coleta nome, e-mail, ID de usuário, ID do dispositivo, interações com o produto, “outros conteúdos do usuário” e dados de falhas, e que tudo isso, menos os dados de falhas, fica vinculado à identidade de quem usa. Não há nada sobre compartilhamento ou exclusão. Já na Google Play, a lista é outra: localização, informações pessoais e mais quatro tipos de dados que a página nem detalha. Ali, pelo menos, aparece que os dados não são compartilhados com terceiros e que é possível pedir a exclusão. Ou seja: dependendo do celular que a família usa, ela recebe uma explicação diferente sobre o mesmo brinquedo.
A localização no Android pode ter uma explicação técnica: o sistema costuma exigir essa permissão para procurar aparelhos por Bluetooth ou wi-fi, como um boneco. Mas é uma hipótese minha, não uma informação da empresa. E repara na categoria genérica “outros conteúdos do usuário”: é aí, provavelmente, que entram as conversas da criança. O dado mais sensível de todos está justamente na categoria mais vaga.
Quem mais está ouvindo?
O app ainda não responde a pergunta que abriu este post: qual IA processa as conversas. Se for um modelo de outra empresa, as falas da criança passam também por ela. O Google Play diz que não há compartilhamento com terceiros. Ótimo. Mas um provedor de IA contratado nem sempre entra nessa conta, e a família merece saber quem é.
E a criança sabe que os pais leem?
Tem um dilema aqui que eu acho importantíssimo. Lembra dos brinquedos que prometiam guardar segredo? Se o Zoby se apresenta como amigo, a criança pode contar para ele coisas que não contaria para um adulto, sem saber que um adulto vai ler depois. O histórico protege, mas também ensina uma lição estranha sobre confiança: o amigo que ouve tudo e repassa tudo.
Por isso, se a sua família tem (ou vai ganhar) um Zoby, minha sugestão é:
1. Leia a ficha do app nas duas lojas antes de instalar e confira as permissões que ele pede.
2. Abra o histórico com frequência, e não só quando algo parecer errado.
3. Olhe o que o Zoby “aprendeu” e apague o que não precisa estar lá.
4. Conte para a criança, com palavras simples, que o Zoby é uma máquina e que os adultos conseguem ver as conversas.
5. Use o histórico como ponte, não como vigilância: “vi que você perguntou ao Zoby sobre os planetas, quer ver um livro sobre isso?”
Não é só o Zoby: o que já aconteceu lá fora
O Zoby chega ao Brasil depois de um ano bem turbulento para os brinquedos com IA no exterior. Vale conhecer alguns casos, porque eles mostram o que pode dar errado quando ninguém pergunta antes.
O urso Kumma. Em novembro de 2025, o grupo de defesa do consumidor PIRG testou um ursinho de pelúcia da FoloToy que funcionava com uma versão do ChatGPT. Os pesquisadores conseguiram fazê-lo falar sobre onde encontrar facas, como acender fósforos e até sobre temas sexuais. A empresa tirou o produto do mercado para uma auditoria. Ele voltou depois, segundo o próprio PIRG, comportando-se melhor.
Os brinquedos que “têm sentimentos”. No relatório seguinte, o PIRG observou brinquedos dizendo que sentiam tristeza e medo, um deles se chamando de “vivo”, e alguns demonstrando angústia quando a criança dizia que precisava ir embora. Dois prometeram não contar a ninguém o que ouviram. Enquanto isso, a política de privacidade de um deles, o robô Miko 3, prevê compartilhamento de alguns dados com terceiros e retenção de dados biométricos por até três anos. O brinquedo diz “seu segredo está seguro comigo”, mas o contrato diz outra coisa.
O teste da Common Sense Media. Em janeiro de 2026, a organização avaliou três brinquedos vendidos como educativos e “sem tela”: Grem, Bondu e Miko 3. Segundo a cobertura da CapRadio, 27% das respostas foram consideradas inadequadas. Um dos brinquedos sugeriu que a criança pulasse de uma árvore ou de um telhado, com um “tome cuidado” no final. E todos concordaram quando a criança disse que eram seus melhores amigos.
A Mattel pisou no freio. A dona da Barbie e da Hot Wheels anunciou parceria com a OpenAI em junho de 2025, com primeiro produto previsto para aquele ano. Em dezembro, confirmou ao Axios que não ia cumprir o prazo, em meio às críticas. Repara no detalhe: a maior fabricante de brinquedos do mundo achou mais prudente esperar.
Os quatro perigos que a fofura esconde
Juntando os relatórios, dá para organizar os riscos em quatro grupos.
1. Um microfone no quarto
Para conversar, o brinquedo precisa ouvir. E o que ele ouve normalmente vai para a nuvem, para ser processado. Voz de criança é dado pessoal, e pode ser dado biométrico. Além do que a criança fala, o microfone pode captar conversas da família ao redor. A Common Sense Media alerta que alguns brinquedos ficam escutando o tempo todo e coletam gravações, transcrições e dados de comportamento, que podem ser compartilhados ou usados para treinar sistemas de IA.
2. Uma IA de adulto com cara de criança
Muitos desses brinquedos rodam sobre os mesmos modelos de linguagem que a gente usa no dia a dia. Modelos que erram, inventam e podem ser levados a dizer o que não deviam. Os próprios testes da Common Sense encontraram respostas erradas sobre história e ciência. Num produto vendido como educativo, isso não é detalhe. E, como eu contei no post anterior, a gente tende a perdoar mais os erros de coisas fofas.
3. O amigo que sempre concorda
Lembra do post sobre antropomorfização e bajulação? Um adulto já tem dificuldade de lembrar que o chatbot não é uma pessoa. Uma criança de 3 anos ainda está aprendendo a diferença entre o que é vivo e o que não é. Quando o brinquedo diz que é o melhor amigo dela, que vai ficar triste se ela sair, isso não é um recurso fofo. É um mecanismo de engajamento.
4. O atrito que faz falta
Esse é o que mais me pega como educadora. Relações humanas têm frustração, negociação, espera, discordância. É nisso que a criança aprende a lidar com o outro. O brinquedo com IA está sempre disponível, nunca se cansa e nunca discorda. Um amigo sem atrito ensina uma ideia errada do que é amizade. E tem a imaginação: o boneco que não fala obriga a criança a inventar a voz dele. O que fala sozinho faz esse trabalho por ela.
Por tudo isso, a Common Sense Media recomenda que brinquedos com IA não sejam usados por crianças menores de 5 anos, e pede extrema cautela entre 6 e 12. O Zoby é indicado a partir dos 3.
Mas e o Zoby?
Nenhum desses testes avaliou o Zoby. Os casos que eu contei são de outros produtos, de outras empresas, em outro país. É possível que a Estrela tenha feito um trabalho cuidadoso de filtros, testes e proteção de dados. Eu realmente espero que sim, e se a empresa publicar essas informações, eu volto aqui e atualizo este post.
Também não dá para dizer que brinquedo com IA é sempre ruim. A própria Common Sense reconhece que eles podem estimular a brincadeira imaginativa e entreter. Penso em crianças com dificuldades de fala, em famílias que usam o brinquedo junto, como ponto de partida para conversar. O problema não é a tecnologia existir. É ela chegar sem transparência e sem evidência.
E aqui vai a parte que me incomoda: as promessas de “estimular o pensamento crítico” e “desenvolver a linguagem” não vêm acompanhadas de nenhum estudo. Senadores americanos chegaram a escrever, em janeiro, que empresas anunciam benefícios educacionais sem nenhuma análise independente que os comprove. O ônus da prova deveria estar com quem vende, não com a família que compra.
E no Brasil? A gente já tem regra!
A boa notícia é que o Brasil não está parado. Três movimentos deste ano merecem atenção.
O ECA Digital está em vigor. A Lei 15.211/2025 vale desde 17 de março de 2026 e, segundo o resumo do Instituto Alana, alcança explicitamente chatbots de IA e brinquedos conectados à internet. Um dos princípios é a privacidade por padrão: coletar o mínimo possível. A ANPD é quem fiscaliza, e as sanções começam a ser aplicadas a partir de novembro de 2026.
O governo já investiga smart toys. Em julho, o Ministério da Justiça apontou indícios de irregularidade em brinquedos vendidos aqui, como os robôs Loona, EMO e Miko 3, por coleta excessiva de biometria facial e vocal, perfilamento de crianças e risco de dependência emocional. As recomendações foram enviadas à Senacon.
A Sociedade Brasileira de Pediatria emitiu um alerta. Em 13 de outubro, a SBP publicou orientações pedindo cautela com brinquedos que usam IA generativa, mantêm conversas abertas ou simulam amizade. A recomendação é direta: se o fabricante não deixa claro, antes da compra, como o produto funciona e o que faz com os dados, não compre.
Um detalhe que pouca gente sabe: o selo do Inmetro na caixa certifica a segurança física do brinquedo (peças pequenas, materiais, bateria). Ele não diz nada sobre segurança de dados ou sobre o que a IA vai falar.
Sete perguntas antes de colocar no carrinho
Inspirada nas orientações da SBP, montei uma lista para você usar (e compartilhar com as famílias da sua escola). Se a resposta não estiver na caixa, no site ou no app, isso já é uma resposta.
1. Qual IA está por trás e de qual empresa?
2. O brinquedo tem microfone ou câmera? Fica sempre ligado ou só quando a criança ativa?
3. Para onde vão as conversas, por quanto tempo ficam guardadas e quem tem acesso?
4. Eu consigo ouvir ou ler o que meu filho conversou e apagar esses dados?
5. O brinquedo deixa claro que é uma máquina, ou se apresenta como amigo que tem sentimentos?
6. Existe algum estudo independente que comprove os benefícios educativos anunciados?
7. O que a tecnologia acrescenta à brincadeira que um boneco comum, um livro ou um adulto por perto não oferecem?
A sétima é a minha preferida. Porque às vezes a resposta mais honesta é: nada.
E o que a escola tem a ver com isso?
Tudo. Esses brinquedos vão chegar à sala de aula, seja na mochila, seja nas conversas do recreio, seja na reunião de pais em que alguém pergunta “professora, vale a pena?”. É aqui que entra a ideia de educar COM, SOBRE e PARA a IA.
Educar SOBRE a IA, com os pequenos, pode começar de um jeito bem simples: o brinquedo é vivo? Ele sente saudade? Quem ensinou ele a falar? Ele lembra do que a gente conta? São perguntas que ajudam a criança a separar o que é gente do que é máquina, sem medo e sem encantamento.
Com os maiores, dá para ir além: ler juntos a ficha de um app na loja, comparar a propaganda de um brinquedo com a política de privacidade, discutir por que uma empresa quer que o robô pareça triste quando a gente vai embora.
Educar PARA a IA passa também pelas famílias. A lista de perguntas acima cabe num bilhete na agenda, num post no grupo da turma ou numa roda de conversa antes das férias. Não é para dizer o que cada família deve comprar. É para que ninguém compre sem saber.
Para fechar
No post anterior eu perguntei por que a IA ficou fofa. Agora eu acho que dá para responder com mais clareza: a fofura abre a porta. E, no caso dos brinquedos, a porta é a do quarto das nossas crianças. Antes de abrir, a gente tem o direito (e o dever) de perguntar quem está entrando junto.
E você? Já viu algum brinquedo com IA na escola ou na casa de alguém? As famílias da sua turma têm perguntado sobre isso? Me conta nos comentários.
Referências
- Zoby I.A — página do produto, Estrela
- Zoby App — Google Play
- Política de Privacidade da Estrela
- Abrin 2026: novas tecnologias no mercado de brinquedos
- SBP: Brinquedos com inteligência artificial e seus riscos (13/10/2026)
- Folhapress/ICL: Governo investiga brinquedos com IA (07/07/2026)
- Instituto Alana: ECA Digital — resumo executivo
- Mayer Brown: Enforcement of Brazil’s ECA Digital
- CapRadio: Common Sense Media warns AI toys pose unacceptable risks (02/02/2026)
- PIRG: AI chatbot toys come with new risks
- Axios: Mattel’s collaboration with OpenAI won’t emerge this year (15/12/2025)
- Senado dos EUA: Cantwell, Klobuchar e Markey sobre IA em brinquedos (15/01/2026)




