A IA já entrega a aula pronta, e é exatamente isso que me preocupa

O que a gente deixa de aprender quando a inteligência artificial planeja a aula no nosso lugar?

Imagina a cena: você abre a plataforma, digita o tema da aula, escolhe a série e a metodologia, clica em um botão e, em alguns segundos, recebe o pacote completo. Plano de aula, slides, lista de exercícios, atividade prática, caça-palavras, quiz, sugestão de avaliação. Tudo pronto, tudo alinhado à BNCC, tudo bonitinho. Tentador, né?

Eu entendo perfeitamente por que esse tipo de ferramenta explodiu entre os professores. A gente vive afogado. A escola cobra planejamento, diagnóstico, alinhamento à BNCC, aula engajadora, correção, PEI, e ainda quer tudo isso no prazo, enquanto a gente tenta dar conta de turmas novas, várias escolas para dar aula, burocracia e uma vida fora da escola. Nesse cenário, uma ferramenta que promete devolver 15 horas da sua semana não parece luxo. Parece sobrevivência.

A Teachy é talvez o exemplo mais conhecido disso por aqui. É uma startup brasileira (e eu faço questão de valorizar quando a solução nasce entendendo a nossa realidade, e não importada de fora), tem um plano gratuito com créditos diários, materiais alinhados à BNCC e uma proposta clara: reduzir o tempo que você gasta planejando. Já são milhões de professores usando. E olha, eu não estou aqui para dizer que isso é mentira ou que a ferramenta é ruim. Não é. Ela faz o que promete.

Mas é justamente por isso que eu preciso falar sobre o que me incomoda.

Quinze minutos

Anúncio da Teachy no Instagram durante a BETT Brasil 2026

Na BETT Brasil desse ano eu vi a Teachy anunciando uma funcionalidade que, para mim, resume tudo o que me preocupa: criar e imprimir o seu próprio material didático em 15 minutos.

QUIN-ZE minutos.

Parei para pensar nisso. Não é mais só o plano de aula que vem pronto. Agora é o material que vai parar na mão do aluno, impresso, com cara de livro, com ar de coisa séria e revisada. Em quinze minutos. E aí eu me pergunto: em quinze minutos dá tempo de quê? De gerar, imprimir e entregar. Não dá tempo de ler com atenção, de checar se não tem um erro conceitual, uma informação inventada, um exemplo que não conversa com a realidade da sua turma. (E quem trabalha com IA sabe que esses erros acontecem, e com frequência.)

E aqui vale lembrar de uma história que nem precisou de IA para dar errado. Em 2023, a rede estadual de São Paulo decidiu recusar os livros do PNLD e adotar um material didático 100% digital, em slides, distribuído para mais de 3 milhões de alunos. O resultado virou manchete: o material afirmava que a cidade de São Paulo tem praias, que a Lei Áurea foi assinada por Dom Pedro II (e não pela Princesa Isabel), e ainda carregava erros de matemática e de ciências. Esse conteúdo circulou nas escolas por meses, até a Justiça mandar suspender e o governo recuar.

E quem encontrou os erros? Os professores. Foram os docentes da rede, na ponta, que pegaram o que passou batido por toda uma cadeia de produção. Agora vamos prestar atenção no detalhe: aquele material foi feito por equipes humanas, com tempo. Se já escapou tanta coisa ali, o que será que escapa quando a promessa é gerar e imprimir em quinze minutos? A IA não inventou o problema do “pronto sem revisão”. Ela só deixou esse atalho muito, muito mais rápido, e muito mais fácil de tomar sem pensar.

A promessa de velocidade é justamente o que me deixa com o pé atrás. Porque quanto mais rápido e mais pronto, menos espaço sobra para a única coisa que não deve ser terceirizada: o seu olhar crítico sobre aquilo.

O problema não é a ferramenta. É o “tudo pronto”.

Quem acompanha o blog sabe que eu não sou contra a IA na sala de aula, muito pelo contrário. Eu inclusive paguei por uma ferramenta de IA recentemente, depois de anos dizendo que não pagaria. Então não é disso que se trata. O que me preocupa é a terceirização.

Quando você digita um tema e aceita o pacote que a IA cospe, você economizou tempo, sim. Mas você também pulou a parte mais importante: pensar a aula. E planejar não é burocracia, é onde mora a pedagogia. É no planejamento que você decide o que importa naquele conteúdo, o que a sua turma específica precisa, qual aluno vai travar onde, qual pergunta vai provocar, o que cortar, o que aprofundar. Esse é o trabalho que faz de você professor, e não um distribuidor de material.

Eu já falei por aqui no post sobre educar COM, SOBRE e PARA a IA que, se a gente focar só no “COM”, corre o risco de virar apertador de botão. As ferramentas que entregam tudo mastigado são o caminho mais curto para esse lugar. Elas não te convidam a pensar junto. Elas pensam por você. E aí o COM (a IA como assistente) não vira parceria, vira substituição.

A diferença entre um parceiro e um piloto automático

Podemos olhar para a IA como um exoesqueleto ou um piloto automático.

O exoesqueleto amplia a sua força. Você continua no comando, continua pensando, continua decidindo, mas com mais fôlego. É assim que eu uso o Claude no meu trabalho: ele me ajuda a estruturar uma ideia, me faz perguntas, reorganiza comigo, mas a inteligência da coisa continua sendo minha. Quando eu uso prompts com intenção pedagógica, eu estou pensando o tempo todo, e o resultado é meu.

O piloto automático é diferente. Você só aperta um botão e aceita o destino. E o perigo do piloto automático não é só a aula genérica que sai dali (porque sim, ela costuma ser genérica, descontextualizada da sua turma real). O perigo maior é o que acontece com você ao longo do tempo: você para de exercitar o músculo do planejamento. E músculo que não trabalha, atrofia. Não adianta reclamar depois que preguiça cognitiva chegar e você achar que não consegue fazer mais nada sozinho.

Tem ainda um segundo problema, que é o que mais me incomoda como formadora. Essas ferramentas são caixas-pretas confortáveis. Você usa, mas não entende o que está por trás. Não aprende a conversar com a IA, não aprende a desconfiar dela, não aprende a identificar o erro, o viés, a informação inventada. E aí a gente nunca chega no SOBRE, naquele letramento em IA que eu insisto tanto que é o que separa um usuário crítico de um consumidor passivo. A ferramenta pronta te dá o peixe. Mas ela não tem nenhum interesse em te ensinar a pescar, porque o modelo de negócio dela depende exatamente de você voltar amanhã para pegar mais peixe.

E o programa de professores embaixadores?

Tem outra parte dessa história que eu acho que a gente precisa olhar com mais atenção: os programas de embaixadores (ou de indicação).

O modelo é mais ou menos assim: você, professor que usa e gosta da plataforma, é convidado a divulgá-la para colegas e escolas. Em troca, ganha créditos, reconhecimento, um selo, às vezes acesso a recursos extras. No caso da Teachy, por exemplo, indicar um colega que se cadastra te rende créditos na plataforma. Na superfície, parece lindo: a professora apaixonada compartilhando algo que mudou a vida dela.

E pode ser exatamente isso, em muitos casos. Eu não estou aqui para julgar a professora que virou embaixadora de boa-fé e que recebeu ali um reconhecimento pelo seu trabalho (que hoje está bem difícil de receber, eu sei).

Mas vamos ser honestos sobre a engenharia por trás disso. Programas de embaixadores transformam a confiança entre professores em canal de crescimento da empresa. A gente confia muito mais na indicação de um colega de sala dos professores do que em qualquer anúncio, né? E é justamente essa confiança que está sendo monetizada. A linha entre “te conto porque amo” e “te conto porque ganho com isso” fica embaçada, e nem sempre quem recebe a indicação sabe que existe um incentivo no meio.

Some isso ao fato de que tudo isso acontece num contexto onde professor não tem verba. Quando os créditos custam dinheiro (ou tempo), um “indique e ganhe” se torna poderosíssimo. Eu só acho que a gente precisa entrar nesse jogo de olhos abertos: uma indicação com incentivo financeiro não é exatamente uma recomendação neutra. E saber isso já muda muita coisa.

Então, qual é o ponto?

Não é “não use a Teachy”. Não é “ferramenta pronta é o capeta”. A vida real é mais do que isso, e eu seria hipócrita de dizer o contrário usando IA todos os dias.

O ponto é como a gente usa. Use a ferramenta como ponto de partida, nunca como ponto de chegada. Pegue o plano que a IA gerou e oergunte: isso serve para a minha turma? Onde está o erro? O que falta aqui que só eu, que conheço esses alunos, sei que precisa estar? Transforme o “tudo pronto” em rascunho, e o rascunho em sua aula. Assim você economiza tempo sem terceirizar o pensamento. Assim a IA volta a ser exoesqueleto, e não piloto automático.

Porque no fim, o que está em jogo não é só a qualidade de uma aula. É o tipo de professor que a gente vai ser daqui a cinco anos: o que ainda sabe pensar a própria aula, ou o que esqueceu como se faz.

E você, já usou a Teachy ou outra ferramenta dessas? Sentiu que ela te ajudou a pensar ou que ela pensou por você? Me conta aqui nos comentários, eu quero muito ouvir os dois lados.

PS: se essa conversa sobre usar IA com intenção (em vez de no piloto automático) faz sentido para você, é exatamente esse o coração do meu curso IA para Educadores: Entenda, Use e Ensine. O nome não é à toa: a ordem é entender primeiro, usar depois.

Compilado de artigos

Guia Básico: IA para Educadores

Um percurso completo, dos fundamentos da IA à prática em sala de aula, para que você não apenas acompanhe essa transformação, mas a lidere com propósito e segurança.

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Roberta Freitas

Professora

Roberta é educadora com foco em tecnologia educacional e interesse em novas tecnologias, inovação, gestão e capacitação de professores. Mestre em Estudos da Linguagem, graduada em Letras. Google Innovator, Google Trainer e líder do Grupo de Educadores Google do Rio de Janeiro. Atua no ensino de língua inglesa há mais de 15 anos e se especializou em integração de tecnologia educacional no currículo. Tem experiência e interesse em design instrucional, capacitação de professores, ensino remoto e híbrido, metodologias ativas, ensino de idiomas, integração de tecnologia educacional, cultura maker, realidade virtual e aumentada e inteligência artificial. É fã de moda, viagem e gastronomia.

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