Deixa eu começar com uma informação que talvez você não saiba sobre mim: eu cresci dentro da Igreja Católica. Escola católica desde pequena, primeira comunhão, crisma, grupo jovem, retiros, grupo de música, missa todo domingo. Não era por obrigação, era minha vida social, minha comunidade, o lugar onde eu me sentia parte de algo maior.
Em algum momento da adolescência, fui percebendo uma distância entre o que era pregado e o que era vivido. Não estou falando dos grandes escândalos já conhecidos, estou falando da hipocrisia miúda do dia a dia, que às vezes dói mais porque é de perto. Comecei a olhar para a Igreja com outros olhos: os de quem vê uma instituição humana, com toda a complexidade que isso implica. Fui me distanciando sem deixar de reconhecer o que a igreja católica me deu. Os valores que aprendi ali de amor ao outro, responsabilidade coletiva e vida em comunidade ficaram. Eles me moldaram. E eu ainda os carrego.
Conto esse breve histórico porque é o lugar de onde eu li a Magnifica Humanitas. Em 15 de maio de 2026, o Papa Leão XIV publicou essa encíclica, um documento inteiro dedicado, entre outras coisas, à inteligência artificial e ao que ela significa para o futuro da humanidade. Vi muitas pessoas lendo e também fiquei curiosa.
E aqui estou, não para fazer uma resenha teológica (não é essa a minha área), mas para compartilhar o que me chamou atenção como educadora que trabalha com IA há alguns anos (e como alguém que tem uma relação longa, afetiva e complicada com a instituição que assina o documento). Porque tem coisa no texto que eu achei bonita e verdadeira. Tem coisa que me incomodou. E tem coisa que me fez parar, reler e reconhecer que o Papa tocou num ponto que eu mesma deveria falar mais.
O que é uma encíclica, afinal?
Para quem não é familiarizado com o vocabulário da Igreja: uma encíclica é uma carta formal do Papa, dirigida a toda a comunidade católica (e, em alguns casos, como neste, ao mundo inteiro). É um dos documentos de maior peso no magistério da Igreja.
A Magnifica Humanitas faz parte de uma tradição que começou em 1891, quando o Papa Leão XIII escreveu a Rerum Novarum, um documento sobre os direitos dos trabalhadores na era industrial. O Papa Leão XIV, 135 anos depois, retoma esse espírito: o que precisamos dizer, como Igreja, sobre as “coisas novas” do nosso tempo? E as coisas novas, agora, são a IA, a robotização, as plataformas digitais e o poder que isso concentra nas mãos de poucos.
O que eu achei bonito (e verdadeiro)
A encíclica parte de dois pilares que, como educadora, eu reconheço imediatamente: a dignidade humana não é negociável e a tecnologia não é neutra.
Sobre o primeiro ponto, o documento diz que a dignidade de cada pessoa não depende da sua eficiência, da sua produtividade, do quanto ela consegue render. Isso pode parecer óbvio, mas na era dos algoritmos de desempenho, das métricas de aprendizagem e da pressão por resultados padronizados, é um lembrete que faz muito sentido. A IA que avalia alunos, que pontua redações, que sugere “caminhos de aprendizagem personalizados” com base em dados, ela precisa ser questionada à luz dessa premissa. O que ela considera progresso? O que ela exclui do seu cálculo?
“Na era da inteligência artificial, em que a dignidade humana corre o risco de ser ofuscada por novas formas de desumanização, temos o dever urgente de permanecer profundamente humanos, salvaguardando com amor essa magnífica humanidade.” – Magnifica Humanitas
Sobre o segundo ponto, a encíclica diz algo que repito há anos nas minhas formações: a tecnologia tem o rosto de quem a cria, financia e regula. Ela não chega às escolas como um objeto neutro. Ela carrega escolhas, valores, interesses. E isso precisa ser ensinado. Não só para os alunos, mas para os professores também.
“A tecnologia pode curar, conectar, educar, cuidar da Casa comum; mas também pode dividir, descartar, gerar novas injustiças. Na teoria, em si mesma, ela não é uma solução para os problemas da humanidade, assim como não é, em si mesma, um mal; todavia, na prática, não é neutra, porque tem o rosto daqueles que a concebem, financiam, regulam e utilizam.” – Magnifica Humanitas
Outro ponto que me tocou foi a crítica ao que o documento chama de “paradigma tecnocrático”: a tendência de reduzir tudo a dados, eficiência e desempenho. A encíclica fala do risco de transformar o ser humano em recurso a utilizar, em vez de fim em si mesmo.
“A nossa relação com a vida parece estar hoje em crise. Tudo o que se apresenta como ‘limite’, incapacidade, doença, velhice, sofrimento, vulnerabilidade — tende a ser interpretado, antes de mais, como um defeito a corrigir, e não como um espaço onde o humano amadurece e se abre à relação.” – Magnifica Humanitas
Qualquer professora que já se sentiu medida por planilha de resultado de prova entende exatamente do que estão falando.
O que me fez parar pra pensar
A encíclica fala muito sobre os riscos da IA concentrada nas mãos de poucos. Critica o poder das grandes empresas privadas e transnacionais que hoje desenvolvem e controlam essas tecnologias. É uma crítica legítima e necessária. Mas a Igreja também é uma instituição global com bilhões de seguidores, uma das maiores proprietárias de terras do mundo e com uma estrutura de poder bastante centralizada.
Além disso, tem uma seção na encíclica que fala sobre educação e aliança educativa para a era digital e que me deixou pensativa. O documento defende que a escola precisa cultivar o pensamento crítico, a capacidade de discernir, o uso consciente das ferramentas digitais. Fala em “ecologia da comunicação”, ou seja, a ideia de que precisamos cuidar do ambiente informacional em que vivemos, assim como cuidamos do ambiente físico. E propõe uma aliança entre famílias, escolas e comunidades para navegar esse momento.
“Toda a tecnologia educa quem a utiliza. Educar para o uso da IA implica, portanto, educar para decidir quando e em que situações não a utilizar.” – Magnifica Humanitas
Essa frase é simples, é direta e toca num ponto que o debate sobre IA na educação ainda não encarou de frente: não estamos apenas ensinando como usar, precisamos ensinar quando não usar. E isso exige julgamento, discernimento, autonomia. Coisas que não se desenvolvem com um tutorial de cinco minutos.
O documento ainda vai mais longe ao descrever o que a IA não é:
“As ditas inteligências artificiais não vivem uma experiência, não possuem um corpo, não passam pela alegria e pela dor, não amadurecem nas relações, não conhecem internamente o que significa amor, trabalho, amizade, responsabilidade. Nem sequer possuem uma consciência moral: não julgam o bem e o mal, não captam o sentido último das situações, não assumem sobre si o peso das consequências. Podem imitar linguagens, comportamentos, avaliações, podem simular empatia ou entendimento, mas não compreendem o que produzem, porque não penetram o horizonte afetivo, relacional e espiritual no qual o ser humano se torna sábio.” – Magnifica Humanitas
Isso não é uma crítica à IA. É uma definição do que ela é, e do que ela não é. E essa distinção é importante para a educação. Quando usamos IA para substituir processos que desenvolvem exatamente essas capacidades, o julgamento, a relação, o amadurecimento pelo erro, estamos abrindo mão do que a escola tem de mais valioso.
A encíclica ainda faz uma conexão que achei muito precisa entre o ambiente digital e o enfraquecimento da democracia:
“Quando a questão sobre o verdadeiro perde interesse e se instaura um pragmatismo que se dá por contente com o que parece útil ou eficaz, a vida democrática enfraquece.” – Magnifica Humanitas
E propõe que a educação é o antídoto, mas um antídoto que exige tempo, paciência e profundidade, exatamente o que a cultura digital corrói:
“Os processos educativos requerem um tempo de maturação, de confronto com a realidade que vai além das aparências, e um caminho de paciência.” – Magnifica Humanitas
Tudo isso eu concordo. Mas aí eu fico pensando: quem está fazendo isso, concretamente, nas escolas brasileiras agora?
Não quero soar pessimista. Mas existe um gap enorme entre o que a encíclica propõe (e o que o MEC também propõe, e o que eu mesma defendo) e o que de fato acontece na sala de aula. O professor que está dando conta de 35 alunos, duas escolas, cinco turmas por dia. Ele tem tempo e suporte para ensinar letramento digital com a profundidade que o momento exige?
O documento do Papa e os documentos do MEC que já analisei neste post têm algo em comum: são ricos em visão e escassos em como fazer. A encíclica ao menos não pretende ser um plano de ação, ela é um chamado ético. Mas um chamado ético sem estrutura para respondê-lo vira mais um peso nas costas de quem já carrega muito.
Mas vale a pena ler?
Depende do que você está buscando.
Se você quer um documento que questione com seriedade o poder das big techs, a concentração de dados, os riscos da automação para o trabalho e a dignidade humana, sim, vale. Está lá, com argumentação densa e honesta.
Se você quer pontos de partida para conversar com famílias e comunidades sobre IA com uma perspectiva ética, também vale. O documento tem uma linguagem acessível (para uma encíclica papal, rs) e levanta questões que vão além de qualquer credo.
Se você quer orientações práticas para a sua sala de aula, bom, o lugar não é aqui. Não é o propósito do documento.
E se você, como eu, tem uma relação longa e complexa com a Igreja, mas reconhece que os valores que ela defende nesse documento são também os seus valores como educador, então talvez valha a pena ler com os olhos que a gente usa pra ler qualquer texto: seletivamente, criticamente, e com disposição de separar o que serve do que não serve.
Uma última coisa
O título da encíclica é Magnifica Humanitas: a magnífica humanidade. A ideia central é que existe algo no ser humano que nenhuma máquina substitui, que nenhum algoritmo captura, que nenhuma eficiência elimina. E que preservar isso, no meio dessa revolução tecnológica toda, é uma tarefa de todos.
Essa ideia eu reconheço. Aprendi ela, de certa forma, nas missas de domingo e nos retiros da adolescência, antes mesmo de saber o que era inteligência artificial. Ela ficou comigo quando me distanciei da instituição. E ela reapareceu aqui, no título de uma encíclica, me lembrando que algumas convicções são maiores do que qualquer organização que as carregue.
Com todas as minhas ressalvas ao documento, com toda a distância que tenho de algumas posições da Igreja, essa premissa eu compartilho. A questão é como a gente faz isso dentro das escolas reais, com professores reais, com recursos reais. Essa resposta a encíclica não tem (e nem se propõe a isso). E, honestamente, ninguém tem ainda.
E você? Já tinha ouvido falar na encíclica? Tem alguma posição do documento que te chamou atenção, positiva ou negativamente? Me conta aqui nos comentários!
PS: Se quiser ler a encíclica completa (em português!), ela está disponível no site do Vaticano. Se você não sabe por onde começar, minha sugestão é ir direto para o Capítulo III, que trata especificamente de “técnica e domínio”, que é onde o debate sobre IA fica mais concreto.
PPS: Este post não é uma posição da Igreja, nem de nenhuma outra instituição. É a minha leitura, pessoal e parcial, como educadora que trabalha com tecnologia, e que cresceu cantando no grupo de música da paróquia.



