Trends, IA e o FOMO

Por que não precisamos participar de todas as trends?

Se você abriu o TikTok ou o Instagram nos últimos dias, deve ter sentido que o relógio retrocedeu. A trend “2026 is the new 2016” inundou o feed com filtros estourados, músicas do Justin Bieber e uma nostalgia quase dolorosa de um tempo em que tudo parecia mais simples, ou, pelo menos, pré-pandemia e pré-explosão das IAs generativas.

Como educadores, esse movimento nos atinge de um jeito curioso. De um lado, a gente quer estar onde nossos alunos estão, falando a língua deles e participando um pouco do cotidiano deles. Do outro, vivemos o eterno dilema: até onde devemos surfar a onda das trends sem perder o nosso senso crítico?

A velocidade das redes sociais cria o que chamamos de FOMO (Fear Of Missing Out, ou o medo de ficar de fora). Mas, quando o assunto é tecnologia educacional e ética, talvez o nosso melhor superpoder seja o JOMO (Joy Of Missing Out): a alegria, e a segurança, de escolher não participar de tudo.

O caso Studio Ghibli

Imagem estilo Studio Ghibli. Fonte: Eeasy-peasy.ai

Em 2025, o mundo se encantou com a trend de transformar fotos reais em animações no estilo do Studio Ghibli quando o ChatGPT liberou a geração de imagens gratuita. É uma graça, não dá para negar. Porém, essa trend traz um ruído ético que não dá para ignorar.

Hayao Miyazaki, o mestre por trás do estúdio, já declarou publicamente que a arte gerada por IA é um “insulto à própria vida“. Ele faz um trabalho super artesanal e leva muito tempo para produzir uma animação. Quando usamos uma ferramenta para replicar o estilo meticuloso de um artista que rejeita essa tecnologia, estamos cruzando uma linha tênue entre a homenagem e o desrespeito à autoria. Como ensinar propriedade intelectual aos nossos alunos se somos os primeiros a “promptar” o estilo alheio sem critério?

Polaroids e Presenças Simuladas

Foto estilo Polaroid gerada com IA. Fonte: malê

Outra tendência que ganhou força foi a das Polaroids com IA, onde fãs aparecem abraçando ídolos ou até parentes que já faleceram. O Google Gemini e o ChatGPT tornaram isso acessível com um simples comando.

Aqui, o perigo mora na diluição da verdade. Para um adolescente em busca de identidade, a linha entre o “eu estive lá” e o “eu simulei estar lá” é muito fina. Além disso, o uso da imagem de terceiros (celebridades ou não) para criar fotos realistas abre portas para discussões pesadas sobre deepfakes e consentimento.

Sonhar ou Simular?

Imagens geradas com IA por professora em Tocantins. Fonte: G1

Outra tendência foi o uso de IA para projetar os sonhos de carreira dos alunos. Aqui temos alguns pontos importantes. O primeiro é a falta de autorização para o uso das imagens dos estudantes em ferramentas de IA. Além disso, a imagem perfeita gerada pela IA acaba substituindo o processo. A tecnologia deve ser a ferramenta que inspira o sonho, mas não pode ditar que o sucesso tem apenas uma cara (aquela estética plastificada e padrão que os algoritmos adoram).

Onde ajustar a nossa bússola?

Participar de uma trend pode ser uma excelente estratégia de engajamento, mas antes de postar ou levar para a aula, sugiro três perguntas de reflexão:

A troco de que dados? Para gerar aquela imagem, o que você (ou seu aluno) está entregando para a plataforma?

Há consentimento? Essa trend usa o estilo ou a imagem de alguém que não autorizou essa recriação?

Qual o valor pedagógico? Estamos usando porque é “legal” ou porque isso gera uma reflexão real sobre o mundo digital?

Nem toda tendência merece o nosso tempo. No fim das contas, nossa maior missão não é sermos os educadores mais virais, mas os que ensinam a navegar com consciência em um mar de algoritmos.

Nosso maior poder

Sei que a cada semana surge uma IA nova prometendo revolucionar nossa produtividade ou a forma como criamos conteúdo. A tentação de testar tudo é enorme, mas deixo aqui o meu convite para este início de ano: nossa ferramenta mais poderosa não é um novo algoritmo, é o nosso pensamento crítico.

Teremos muitas novidades, ferramentas incríveis e automações que parecem magia. No entanto, o mais importante continua sendo a nossa capacidade de pensar, questionar e ponderar. Antes de ser um usuário avançado de qualquer ferramenta, escolha ser um pensador crítico sobre ela. É isso que nos diferencia e é isso que nossos alunos mais precisam aprender conosco.

No fim das contas, nossa maior missão não é sermos os professores mais “virais”, mas os que ensinam a navegar com consciência em um mar de algoritmos.

E você? Já sentiu essa pressão de participar de todas as trends de IA com sua turma? Como você tem exercitado o pensamento crítico por aí? Vamos conversar nos comentários!

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Roberta Freitas

Professora

Roberta é educadora com foco em tecnologia educacional e interesse em novas tecnologias, inovação, gestão e capacitação de professores. Mestre em Estudos da Linguagem, graduada em Letras. Google Innovator, Google Trainer e líder do Grupo de Educadores Google do Rio de Janeiro. Atua no ensino de língua inglesa há mais de 15 anos e se especializou em integração de tecnologia educacional no currículo. Tem experiência e interesse em design instrucional, capacitação de professores, ensino remoto e híbrido, metodologias ativas, ensino de idiomas, integração de tecnologia educacional, cultura maker, realidade virtual e aumentada e inteligência artificial. É fã de moda, viagem e gastronomia.