IA na Educação: o que diz o novo documento da UNESCO

O que realmente está em jogo quando a inteligência artificial entra na sala de aula

Na última semana aconteceu a Digital Learning Week da UNESCO em Paris. No evento, eles lançaram o documento “AI and the future of education: Disruptions, dilemmas and directions“, que apesar de ter futuro no título fala muito sobre o presente, o agora, e o que nós, educadores, precisamos conversar. Eu particularmente não gosto de ficar falando sobre o futuro da educação e acredito que o título do documento poderia ser outro. Falamos muito sobre o futuro, mas precisamos pensar no que de fato estamos fazendo no presente para chegar no futuro que desejamos.
O documento é um conjunto de artigos de especialistas de diversas partes do mundo e traz cases de uso de IA na educação de diversas regiões também, inclusive com exemplos de boas práticas do Brasil! Por enquanto, o documento só está disponível em inglês, então resolvi trazer aqui um breve panorama do conteúdo e alguns insights.
Algumas ideias são comuns ao longo do documento: a IA não é só uma ferramenta; ela é uma força que já está aqui, mudando como aprendemos e ensinamos. E essa mudança não é igual para todos. Enquanto um terço do mundo ainda não tem internet, o acesso aos modelos de IA mais avançados está restrito a quem tem condições financeiras, infraestrutura e até vantagens linguísticas. Isso não é apenas uma questão de acesso; é sobre quais valores, conhecimentos e idiomas estão dominando os sistemas que influenciam a educação.
Mas vamos lá, vou agora falar um pouco sobre cada temática do documento.

Introdução

O documento começa com uma visão geral e nos provoca a ir além do uso prático da IA e a pensar nas questões filosóficas, éticas e pedagógicas que ela levanta. Ele nos mostra que a IA está se tornando uma parceira interativa, atuando como tutores e professores digitais. Cenários que pareciam ficção, como uma criança em Gana aprendendo álgebra com um tutor de IA no WhatsApp ou um avatar de IA ministrando aulas em uma universidade coreana, já são realidade. Mas essa disrupção traz dilemas profundos. A educação está se tornando um campo de batalha para modelos comerciais de IA que prometem eficiência e escala, mas que podem ameaçar a essência do aprendizado profundo e a conexão humana.
© UNESCO

Futuros da IA na Educação: Provocações Filosóficas

Esta seção do documento convida a uma reflexão filosófica, questionando a própria natureza da inteligência e o propósito da educação. Somos desafiados a ver a IA não como uma mera ferramenta, mas como uma força que mexe com os fundamentos do que é aprender e ensinar… O que significa aprender e ensinar em um mundo moldado por sistemas mais-que-humanos?
O documento traz também tradições filosóficas asiáticas para propor uma educação da sabedoria no centro da reforma curricular, focando no discernimento ético, autorreflexão e equilíbrio, em contraste com modelos de IA baseados em autonomia e eficiência. Ele argumenta que as tecnologias são internas aos humanos e que o medo da IA é, na verdade, um medo dos próprios seres humanos.
Em outro artigo, somos apresentados à metáfora da água para explorar o emaranhamento da IA com a educação, desenhando analogias entre fluxos de poder e conhecimento. Será que a IA, com sua busca por eficiência, pode prejudicar a fluidez do aprendizado? Será que a escassez de recursos hídricos, exacerbada pelas demandas da IA, será um novo desafio ético na educação?

Os Poderes e Perigos da IA

A cada semana, novas inovações em IA generativa surgem, nos fazendo pensar se as máquinas podem em breve igualar ou superar as capacidades cognitivas humanas. E para a educação, isso levanta a questão: qual é o nosso propósito em um mundo cada vez mais moldado por máquinas?

“Assim, as tecnologias nada mais são do que reflexos da consciência e das intenções humanas. Os sistemas de IA podem ter acelerado e intensificado essa interação dinâmica, mas não alteraram a essência dessa relação. O medo dos sistemas de IA é, na verdade, um medo de outros seres humanos.”

O documento traz diferentes visões. Um caminho sugere um roteiro prático: priorizar a pedagogia, investir nos professores e usar a IA onde ela realmente agrega valor, a alfabetização obrigatória em IA e a preparação dos alunos para liderar em um mundo rico em IA. Já um outro artigo critica as narrativas predominantes sobre IA e AGI (inteligência artificial geral), caracterizando-as como mitos especulativos que desvalorizam o trabalho dos educadores e desviam o investimento público. E ainda nos lembra que os modelos de linguagem grandes (LLMs) não entendem ou raciocinam; eles apenas produzem texto estatisticamente plausível. E, mais uma vez, a verdadeira ameaça está na concentração de poder nas mãos de poucas empresas comerciais, cujos interesses estão moldando os sistemas educacionais.

Pedagogias da IA, Avaliação e os Futuros Educacionais Emergentes

Professores experimentando o Gemini
A adoção da IA na educação não é algo simples. Ela não pode ser feita sem critério, pois os sistemas de IA podem reproduzir desigualdades sistêmicas e achatar a rica complexidade do pensamento humano. A educação é um empreendimento humano e relacional, que desafia a automação e a dataficação.
O documento ainda alerta sobre os riscos da hiper-personalização algorítmica, que pode isolar os alunos, restringir a autonomia e diminuir o papel do professor. Em vez disso, eles defendem abordagens centradas no ser humano, onde a IA atua como uma terceira presença de apoio que enriquece a empatia e a colaboração.
Em relação à avaliação, o documento argumenta que a IA generativa expõe vulnerabilidades nos sistemas tradicionais e aprofunda as iniquidades globais, pois o acesso a ferramentas e treinamento de IA é desigual.

Revalorizando e Recentrando os Professores Humanos

Professores analisando atividades com/ sobre IA

Aqui vemos novamente a proposta de um modelo colaborativo onde o aluno é o ápice de uma relação triádica, com as máquinas apoiando tanto professores quanto alunos. O documento também oferece um roteiro prático, com sete mudanças acionáveis que incorporam cuidado, equidade e responsabilidade relacional no desenvolvimento de sistemas de IA, como o co-design participativo com professores e alunos, auditorias de confiança e bem-estar, e gestão de dados liderada por professores.

Enfrentando Desigualdades Codificadas na Educação

À medida que a IA se torna parte da educação, a gente precisa falar de ética. O documento propõe uma ética do cuidado por design, onde a ética é pensada desde o início do desenvolvimento dos sistemas de IA, com processos de design participativos que priorizam as realidades vividas por alunos e professores. A equidade não pode ser automatizada e a responsabilidade precisa ser compartilhada forma equitativa entre as partes interessadas.
O documento ainda alerta para a ascensão da “governança sintética“, onde as decisões são cada vez mais moldadas por sistemas algorítmicos. Eles desafiam a suposição de que a IA pode ser neutra na política educacional e pedem respostas democráticas críticas que priorizem valores, participação e poder.

Imperativos Éticos e de Governança

Nesta seção do documento, quatro artigos abordam as inequidades na educação, defendendo a agência humana, a diversidade cultural e linguística. Somos apresentados a alguns exemplos sobre ensino superior, educação de jovens mulheres e alunos surdos e com deficiência auditiva. Eles defendem abordagens participativas e localmente lideradas, com foco em sistemas de IA que apoiam as regionalidades e refletem os imaginários sociais das comunidades locais.
O documento pede uma reflexão ética sobre o que a inclusão implica, enfatizando a importância das relações, do pertencimento e da aprendizagem coletiva. Ele ainda ressalta que os sistemas de IA personalizados podem manter o status quo educacional, reforçando currículos predeterminados e a competição.

Reimaginar a Política Educacional na Era da IA

A parte final do documento explora as direções políticas e o papel da formulação de políticas baseada em evidências. A IA é cada vez mais um instrumento de “governança” para países como EUA e China. Precisamos de estratégias unificadas dos sistemas educacionais para afirmar suas necessidades e garantir que a IA sirva para aprimorar a aprendizagem e a equidade.
A IA generativa pode ter um impacto desorientador nos sistemas educacionais, por isso é importante ter a agência humana e o desenvolvimento de capacidades como objetivos educacionais centrais.

Conclusão

O documento conclui com um apelo: o futuro da IA na educação não exige apenas políticas técnicas, mas um diálogo, reflexão e imaginação mais profundos. A organização se posiciona como guardiã de uma IA ética, equitativa e centrada no ser humano, combatendo a discriminação algorítmica e a vigilância da IA. É importante resistirmos aos discursos de marketing das plataformas de/ com IA que querem nos convencer de que a IA pode ser a solução para todos os problemas da educação. O que está por trás desse discurso? Será que os benefícios são isso tudo mesmo?

O futuro da IA na educação está sendo escrito e é a nossa responsabilidade coletiva moldar essa narrativa com cuidado, clareza e coragem. Precisamos garantir que a educação continue sendo um bem público, onde a IA é uma aliada, mas a nossa humanidade é o que nos define e dignifica.

Se você chegou até aqui, é porque se interessa no assunto rs. Então recomendo que você leia outros posts sobre o assunto que já escrevi aqui!

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E vocês, o que acham? Como podemos levar essa conversa para dentro das nossas escolas e comunidades?

1 COMENTÁIO

  1. Achei o documento bastante realista e interessante. Será que ultrapassamos o momento de euforia e finalmente estamos olhando pra tudo isso com os pés no chão?

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Roberta Freitas

Professora

Roberta é educadora com foco em tecnologia educacional e interesse em novas tecnologias, inovação, gestão e capacitação de professores. Mestre em Estudos da Linguagem, graduada em Letras. Google Innovator, Google Trainer e líder do Grupo de Educadores Google do Rio de Janeiro. Atua no ensino de língua inglesa há mais de 15 anos e se especializou em integração de tecnologia educacional no currículo. Tem experiência e interesse em design instrucional, capacitação de professores, ensino remoto e híbrido, metodologias ativas, ensino de idiomas, integração de tecnologia educacional, cultura maker, realidade virtual e aumentada e inteligência artificial. É fã de moda, viagem e gastronomia.