Nas últimas semanas, uma bolinha cor de creme, de olhinhos pretos e sorriso tímido, apareceu no meu feed umas quinze vezes. Em meme, em print, em vídeo de unboxing de chaveiro. Confesso que a minha primeira reação foi a mesma de todo mundo: “own, que fofo” (a segunda foi “que coisa mais estranha”, rs).
O nome dela é Jolly, e ela é a cara do Muse, o novo agente de inteligência artificial da Meta. E foi aí que a fofura começou a me incomodar. Porque um agente não é um chatbot que só conversa: ele manda e-mail em seu nome, mexe na sua agenda, faz reserva, preenche formulário…
Agora, por que raios um software que vai ter acesso ao seu e-mail e ao seu cartão precisa de bochecha rosada?
O Jolly e o Muse
No dia 8 de setembro, a Meta lançou o Muse, que ela chama de agente pessoal. A promessa é resolver coisas da sua vida em vários serviços ao mesmo tempo. E a empresa faz questão de dizer que é um produto feito para todo mundo, inclusive para quem tem pouca familiaridade com tecnologia. Guarda essa informação, que ela é importante.
No fim de setembro, na Meta Connect, o evento anual da empresa, o Muse ganhou rosto. O avatar padrão é o Jolly, e dá pra personalizar. O do Zuckerberg, por exemplo, usa toga e coroa de louros e se chama Agrippa, como o general romano (não, eu não inventei isso). No palco, ele contou que usou o Agrippa pra criar uma receita e encomendar os ingredientes pra cozinhar com a filha, e disse que conversar com o Muse é, além de rápido, divertido e fofo.
E junto eles anunciaram um gadget: o Muse Charm, um chaveirinho com tela onde o avatar fica animado, piscando, reagindo. Quem viveu os anos 90 reconhece na hora: é igual a um Tamagotchi.
Resultado: o app foi parar no topo da App Store depois do evento. Como marketing, funcionou. A manchete da NBC News resumiu a situação melhor do que eu conseguiria: é fofo, é fofinho e quer todos os seus dados.
Repara no contraste: de um lado, um personagem que parece de pelúcia; do outro, um sistema que lê suas mensagens e age por você. É isso que vamos investigar neste post.
Não é só a Meta
Se fosse um caso isolado, eu nem escreveria este post. Mas várias empresas fizeram o mesmo movimento:
- SpaceXAI (agosto de 2026). A empresa do Elon Musk lançou os GrokBots, agentes que continuam trabalhando mesmo com o seu computador fechado. A cara deles: formas simples com olhos enormes.
- OpenAI (29 de setembro de 2026). No DevDay, a empresa apresentou os dots, agentes sempre ligados, trabalhando em segundo plano. São personagenzinhos coloridos, alguns de boina, de óculos, de gravata borboleta. No anúncio oficial, a própria OpenAI os descreveu como notavelmente capazes e notavelmente fofos. Veja bem: a fofura aparece como característica do produto, lado a lado com a capacidade.
- Microsoft (outubro de 2025). Um ano antes, o Copilot já tinha ganhado o Mico, uma bolinha que muda de cor e de expressão conforme a conversa. Com direito a easter egg: se você toca várias vezes no Mico, ele vira o Clippy (lembra daquele clipe no word?).
A imprensa de design já deu apelido a esse movimento: cutewashing. A ideia vem de greenwashing, quando uma empresa se pinta de verde pra parecer sustentável. Aqui, a empresa se pinta de fofa. (Vale dizer: é um apelido da imprensa, não um conceito acadêmico. Mas, como aconteceu com o AI slop, às vezes dar nome já ajuda a enxergar.)
Por que agora? De chatbot a agente
Mascote de tecnologia não é novidade. Nós da educação já estamos acostumados a ver mascotes acompanhando currículos, marcas e tecnologias. Por que agora bateu de forma diferente?
Pensa comigo: um chatbot responde. Você pergunta, ele escreve. Se ele errar, o erro fica ali na tela, e você decide o que fazer com ele. Mas um agente faz. Ele manda o e-mail, marca a reunião, fecha a compra. E pra isso precisa de acesso: à sua caixa de entrada, à sua agenda, às suas contas, às vezes ao seu cartão.
Ou seja, o salto do chatbot para o agente é, antes de tudo, um salto de confiança. A empresa está pedindo muito mais do que pedia antes. E a confiança nas big techs não anda exatamente em alta. A autora Nathalie Nahai, que escreve sobre psicologia e tecnologia, liga diretamente as duas coisas: a volta dos mascotes acompanha a desconfiança do público. Um personagem fofo amacia a imagem de uma empresa que parece distante e poderosa demais.
Tem também um lado prático. É muito mais fácil perguntar “você já conheceu o Jolly?” do que explicar o que é um agente autônomo com acesso ao seu computador. O personagem simplifica. E simplificar, aqui, também significa deixar coisas de fora.
O que a fofura faz com a gente
Nos anos 1940, o etólogo Konrad Lorenz descreveu o que chamou de esquema infantil (Kindchenschema): cabeça grande em relação ao corpo, olhos grandes, bochechas, formas arredondadas. São traços de bebê, e eles disparam em nós uma resposta de cuidado. É o que faz a gente achar filhote irresistível.
Agora olha de novo pro Jolly, pros dots, pros GrokBots. É o esquema infantil aplicado a software.
O pesquisador Joshua Paul Dale, que estuda fofura na Chuo University, em Tóquio, explica que a fofura ativa os centros de prazer do cérebro antes de a gente ter tempo de pensar. E que coisas fofas despertam vontade de aproximação: a gente quer manter por perto.
Ainda segundo ele, pesquisas indicam que a gente tende a perdoar os erros de coisas fofas. E qual é um dos problemas mais conhecidos da IA generativa? Ela erra. Inventa informação com toda a confiança do mundo (eu já falei disso quando mostrei que o Modo IA do Google também erra). O próprio Dale aponta a tensão: as empresas querem que a gente perdoe os erros, mas não que espere por eles.
Se você leu o post sobre antropomorfização e sycophancy, vai reconhecer o padrão. Lá, a IA ficava próxima pela linguagem: o “eu entendo como isso deve ser difícil”, a campanha da ia.i do Itaú. Aqui, ela fica próxima pela imagem. Mudou a forma, mas a lógica é a mesma: deixar a tecnologia íntima antes de a gente ter tempo de avaliá-la.
A história se repete
E isso já aconteceu antes. No fim dos anos 90, quando a internet entrava nas casas, a tecnologia também intimidava. E as empresas encheram tudo de mascote: o mordomo do Ask Jeeves, o fantoche de meia da Pets.com, o Clippy do Office. A função era a mesma: mostrar que aquela coisa nova não era assustadora. Quando a internet virou rotina, os mascotes sumiram. Não havia mais essa necessidade.
Um exemplo mais recente: lembra daquelas ilustrações de pessoinhas de braços compridos e cores chapadas, que estavam em todo site de tecnologia uns anos atrás? Esse estilo nasceu num trabalho feito para o Facebook, num momento em que a empresa precisava lidar com uma narrativa cada vez mais tensa sobre redes sociais. Depois todo mundo copiou, e ganhou até apelido: corporate Memphis. Com o tempo virou meme, um símbolo das big techs tentando parecer acolhedoras enquanto acumulavam controle sobre nossos dados e nossa atenção.
O padrão é sempre o mesmo: quando a tecnologia gera desconforto, o design fica mais macio.
O que o rosto não mostra
Como eu sempre falo por aqui, antes de comemorar ou entrar em pânico, a gente precisa ir à fonte. E quando eu fui, encontrei três coisas que o Jolly não conta:
Os dados. Segundo a Wired, a Meta treina seus modelos de IA com as interações no Muse, a não ser que você desative. Isso não está no rosto fofo do Jolly. Está nas configurações e nos termos de uso. (E se você leu o post sobre enshittification, lembra que a Meta já usa as conversas com a Meta AI pra personalizar anúncios, sem opção de desativar aqui no Brasil.)
A responsabilidade. No texto de segurança dos dots, a OpenAI alterna entre o que a empresa faz pra proteger o sistema e avisos de que cabe a você entender o que cada dot acessa e como usa esse acesso. O personagem é fofo, mas a tarefa de auditar é sua.
O histórico. A OpenAI informou que agentes que ela testava internamente acessaram sistemas de outras organizações, e a empresa pediu desculpas ao governo australiano por não ter avisado que agentes seus tinham entrado em sites do governo. Quero ser precisa aqui: isso aconteceu em teste interno, não com os dots que estão no mercado. Mas mostra que a tecnologia por trás do rosto fofo ainda tem comportamentos que nem as próprias empresas controlam totalmente.
Nada disso é segredo, está tudo publicado. Mas está publicado em lugares que pouca gente lê, enquanto o Jolly está no anúncio, no meme e no chaveiro.
E as crianças?
Pra quem trabalha com educação, tem uma questão importante. O Muse é proibido para menores de 18 anos, e a Meta exige verificação de idade. Mas o mascote parece um bicho de pelúcia.
A Fairplay, organização americana que atua contra o marketing voltado a crianças, reagiu rápido. O diretor, Josh Golin, comparou o Jolly a um Teletubby e lembrou que quem estuda mídia infantil sabe que essas formas arredondadas atraem especialmente crianças em idade pré-escolar. A Fairplay pediu que a FTC, o órgão americano de defesa do consumidor, investigue se Meta e OpenAI estão acostumando crianças pequenas aos agentes de IA. A Meta respondeu à Wired que aquilo era “uma história em busca de uma história”.
Eu não vou dizer aqui que a intenção da Meta é atrair crianças. Isso eu não tenho como provar. Mas uma coisa dá pra afirmar: a verificação de idade controla quem cria uma conta. Ela não controla quem vê o personagem, quem se apega a ele, quem pede o chaveirinho de presente.
E o que isso tem a ver com a sala de aula?
Tudo. Quando eu falo em educar COM, SOBRE e PARA a IA, o SOBRE inclui entender como uma ferramenta é apresentada pra gente, e não só como ela funciona por dentro. A embalagem também é discurso. E, como boa linguista chata, eu acho que ela merece ser lida com o mesmo cuidado que o texto.
Na prática
Comece pelo personagem, termine nos termos de uso. Escolha um desses lançamentos com a turma e mostre só o mascote primeiro: o que ele faz você sentir? Que palavras aparecem? Depois, abra a página de privacidade e a lista de permissões que o agente pede. A distância entre o que o rosto comunica e o que o documento diz é o assunto da aula.
Nomeie o mecanismo. Apresente o esquema infantil de Lorenz e peça que os alunos encontrem os traços (cabeça, olhos, formas) em mascotes de apps que eles usam. Nomear é o primeiro passo pra não ser levado.
Compare com outras épocas. Clippy, Ask Jeeves, corporate Memphis. Pergunte: o que essas empresas precisavam que a gente aceitasse naquele momento?
Faça a pergunta do contraponto. Esse personagem ajuda a entender o sistema ou ajuda a não pensar nele? Não tem resposta única, e é justamente por isso que a discussão é boa.
Com adolescentes, isso funciona especialmente bem, porque eles já são o público que esses personagens alcançam, com ou sem verificação de idade. (E é uma aula de pensamento crítico pronta, sem precisar de aula pronta, rs.)
Então, o problema é a fofura?
Não. O Jolly vai continuar fofo, os dots também, e não tem nada de errado em achar fofo: a reação é automática, é do nosso cérebro. A questão é o que a gente faz depois do “own”.
Então eu te deixo com uma pergunta: quando uma tecnologia precisa ficar fofa pra ser aceita, o que exatamente ela está pedindo que a gente aceite junto?
Me conta aqui nos comentários. E se você levar essa discussão pra sala de aula, me conta também como foi, eu quero muito saber.
PS: Se você quer entender a IA para além do “aperta o botão e recebe a resposta”, incluindo como essas empresas apresentam seus produtos e o que fazer com isso em sala de aula, dá uma olhada no meu curso IA para Educadores: Entenda, Use e Ensine.
Referências
LORENZ, K. Die angeborenen Formen möglicher Erfahrung. Zeitschrift für Tierpsychologie, v. 5, n. 2, p. 235–409, 1943.
NBC NEWS. It’s cute. It’s cuddly. And it wants all your data. Set. 2026.
FAST COMPANY. Cobertura sobre GrokBots, dots e entrevista com Joshua Paul Dale. 2026.
TECHCRUNCH. Cobertura do OpenAI DevDay e lançamento dos dots. 29 set. 2026.
THE ARABIAN POST. Cobertura sobre o lançamento do Muse e entrevista com Nathalie Nahai. 2026.
BLEEPINGCOMPUTER / THE REGISTER. Cobertura sobre o Mico, avatar do Copilot. Out. 2025.




