O algoritmo também vota?

A uma semana do segundo turno, a Meta virou assunto no TSE

Se o seu feed está parecido com o meu, essa semana ele explodiu com posts sobre a eleição. E junto com eles, posts sobre como a Meta vem interferindo no processo. Como eu sempre falo por aqui, antes de comprar qualquer ideia, a gente precisa buscar a fonte. E foi o que eu fiz: li a decisão do TSE, o plano que a própria Meta entregou ao tribunal, os relatórios do NetLab da UFRJ e algumas pesquisas sobre algoritmos.

O que eu encontrei não cabe numa manchete. Não é uma questão de “quem a Meta está favorecendo?”, mas de “quem decide o que aparece pra você durante uma eleição, e quem consegue conferir essa decisão?”

Antes de tudo, um aviso importante: este post não é sobre candidato. É sobre o terreno onde todos eles estão jogando (e onde a gente também está, rs).

Primeiro: o que é, afinal, “o algoritmo”?

Toda vez que você abre o Instagram ou o Facebook, existem milhares de posts que poderiam aparecer pra você: dos amigos, das páginas que você segue, de anúncios, de gente que você nunca viu. Não cabe tudo na tela. Então um sistema de recomendação dá uma nota pra cada post e mostra primeiro os que tiraram nota mais alta.

E como essa nota é calculada? Basicamente, pela previsão de quanto aquilo vai te prender: a chance de você curtir, comentar, compartilhar ou parar de rolar a tela. Não é a previsão de quanto aquilo é verdadeiro, importante ou bom pra democracia. É a previsão de engajamento.

Parece abstrato? Então vou te dar o exemplo mais documentado que existe. Em 2021, documentos internos vazados do Facebook (os chamados Facebook Papers) mostraram que, a partir de 2017, o algoritmo do feed tratava as reações com emoji como cinco vezes mais valiosas que uma curtida, incluindo a carinha de raiva. A lógica era simples: reação forte = mais engajamento = mais tempo na plataforma.

Só que os próprios cientistas de dados da empresa confirmaram, em 2019, que posts que geravam a reação de raiva tinham uma chance desproporcional de conter desinformação, toxicidade e notícia de baixa qualidade. Ou seja: o sistema premiava, sem querer (ou sem se importar), justamente o tipo de conteúdo que mais faz mal num debate público.

É aqui que a gente chega na eleição. Segundo o relatório Digital 2026: Brazil, de We Are Social e Meltwater, o WhatsApp é usado por 93,9% dos brasileiros conectados, o Instagram por 91,2% e o Facebook por 80,5%. Três plataformas e uma única dona… E o Digital News Report 2026, do Reuters Institute, mostrou que 53% dos brasileiros já usam as redes sociais como fonte semanal de notícias, mais do que a TV, embora só 22% afirmem confiar no que encontram por lá.

Junta tudo: a maior parte do país se informa num ambiente organizado por um sistema que ninguém de fora consegue ver por dentro, desenhado para maximizar atenção. Não precisa ter má intenção para isso ter efeito político.

Mas o algoritmo muda o meu voto?

Bom, seria muito fácil (e muito desonesto) vender a ideia de um botão secreto que muda a cabeça das pessoas.

Em 2023, um grupo grande de pesquisadores, em parceria com a própria Meta, publicou na revista Scienceum experimento feito durante a eleição americana de 2020. Eles trocaram o feed algorítmico de milhares de usuários do Facebook e do Instagram por um feed cronológico, o mais recente primeiro, sem ranqueamento. O resultado surpreendeu muita gente:

  • O que as pessoas viam mudou bastante. No feed cronológico, apareceu mais conteúdo político e mais conteúdo de fontes pouco confiáveis, e menos conteúdo incivilizado no Facebook.
  • Mas, nos três meses do estudo, essa troca não alterou de forma significativa a polarização, o conhecimento político nem outras atitudes medidas.

Ou seja: tirar o algoritmo não é sinônimo de informação melhor, e o feed não é um controle remoto do eleitor. A gente forma opinião com família, igreja, trabalho, TV, conversa de bar…

Só que esse estudo também tem limites, e os críticos apontaram vários: ele olhou só um período curto, num país específico, com regras de conteúdo que já mudaram desde então. E foi feito com dados que só a Meta tem.

E é justamente esse último ponto que mais interessa. O problema não é que o algoritmo controla o seu voto. É que ele decide o que entra no seu campo de visão, e quase ninguém consegue conferir como. Numa eleição apertada, pequenas diferenças de alcance, um anúncio irregular que circula por semanas, uma falha técnica no dia errado: tudo isso faz diferença. E a gente só fica sabendo quando alguém de fora consegue medir.

O que aconteceu com a Meta em 2026 (até agora)

E alguém de fora mediu. Em 2026, quem fez boa parte desse trabalho foi o NetLab, laboratório de estudos de internet da UFRJ, dentro do projeto Observatório das Big Techs. Vou separar o que aconteceu em três partes.

1. Anúncios eleitorais pagos do exterior

No relatório publicado em 15 de outubro, o NetLab identificou 1.613 anúncios político-eleitorais impulsionados nas plataformas da Meta a partir do exterior, por quem não tinha autorização para fazer propaganda eleitoral no Brasil. Alguns detalhes:

  • As páginas estavam principalmente nos Estados Unidos, mas também na Itália, no México, em Bangladesh e na Colômbia. Eram páginas de nome genérico e criação recente.
  • Os anúncios rodaram entre julho e setembro e promoviam e atacavam candidatos diferentes, muitas vezes de forma contraditória. Não era uma campanha “de um lado”.
  • Tudo foi pago em moeda estrangeira, quase sempre em dólar. Segundo reportagens sobre o relatório, as peças somaram até 171 milhões de impressões.
  • O detalhe mais grave: os anúncios circularam primeiro sem a marcação de conteúdo político. A Meta só reclassificou muitos deles depois que já tinham alcançado muita gente e gerado receita.

2. O dia da eleição

No próprio domingo do primeiro turno, 4 de outubro, o NetLab encontrou 568 anúncios veiculados de forma irregular nas plataformas da Meta, além de problemas no Kwai e no Google e de recomendações indevidas de vídeos de candidatos no TikTok e no YouTube. Entre os achados, anúncios que imitavam comunicações do TSE. E na Biblioteca de Anúncios da Meta, havia anúncios marcados como “inativos” na tela que apareciam como ativos nos dados técnicos. A ferramenta de transparência não batia com ela mesma. A Meta respondeu que a amostra do relatório não representa a dimensão do seu trabalho de integridade.

3. A briga do segundo turno

Na última semana, a Meta foi parar no TSE por outro motivo. A campanha de Lula acusou a empresa de reduzir o alcance das suas publicações para favorecer Flávio Bolsonaro. Os fatos, até aqui:

  • Em 9 de outubro, a campanha ficou quase 24 horas sem conseguir impulsionar posts. A Meta atribuiu o problema a uma falha global no Gerenciador de Anúncios, causada por uma atualização de código que afetou milhares de anunciantes em vários países.
  • Em 14 de outubro, testes mostraram que a Meta AI, a IA que está dentro do WhatsApp, gerava cartazes com “Flávio 22” mas recusava “Lula 13”. A Meta disse que era uma lacuna específica nos filtros, corrigida no mesmo dia, e que passou a bloquear imagens e recomendações de todos os candidatos.
  • A Meta nega qualquer viés, diz que seus sistemas não operam por critérios ideológicos e afirma que a campanha de Flávio também relatou falhas.
  • Em 16 de outubro, o plenário do TSE manteve, por unanimidade, a decisão do ministro Marco Aurélio Bellizze: até o fim do segundo turno, a Meta não pode reduzir a distribuição, tirar das recomendações nem restringir a busca de conteúdos sobre nenhum dos dois candidatos, e a Meta AI precisa usar critérios idênticos para ambos. A decisão também proibiu anúncios políticos pagos ou geridos por contas estrangeiras, com multa de R$500 mil por dia em caso de descumprimento.

Vejam bem, eu não estou dizendo que houve favorecimento. A Meta nega, o TSE não puniu ninguém por fatos passados e a decisão vale igualmente para os dois lados. O ponto é: para saber se houve ou não, um tribunal precisou mandar a empresa abrir os dados de alcance. Quem está do lado de fora, eleitor, pesquisador ou campanha, não tem como conferir sozinho.

E tem mais uma ironia: quem descobriu a diferença na Meta AI não foi um auditor. Foi gente como a gente fazendo teste no WhatsApp e tirando print, gravando a tela, postando e fazendo barulho nas redes. Letramento em IA, na prática, é isso: saber testar, comparar e desconfiar.

Não é a primeira vez

Se isso tudo parece novidade, vale lembrar que a gente já viu esse filme.

2018: o WhatsApp. Naquela eleição, a Folha de S.Paulo revelou que empresas de marketing foram contratadas para disparar mensagens políticas em massa pelo WhatsApp, prática proibida pelo TSE. Um ano depois, em 2019, o próprio gerente de políticas públicas e eleições do WhatsApp, Ben Supple, admitiu publicamente que houve envio em massa violando as regras do aplicativo. A frase dele ficou famosa: “Sabemos que eleições podem ser vencidas ou perdidas no WhatsApp”. Quem disse não foi um crítico das big techs. Foi a própria empresa.

2025: o fim da checagem (lá fora). Em janeiro do ano passado, Mark Zuckerberg anunciou o fim do programa de checagem de fatos por agências independentes nos Estados Unidos, trocando por “notas da comunidade”. A AGU notificou a empresa, e a Meta respondeu que a checagem continuaria no Brasil, “por enquanto”, mas confirmou que as mudanças na política de discurso de ódio já valiam aqui.

Se esse “por enquanto” te deu um frio na barriga, você já sabe o nome disso: é a mesma lógica que eu expliquei no post sobre enshittification. A regra muda quando a dona do terreno quiser. E numa eleição, o terreno é o debate público de um país inteiro.

As regras do jogo em 2026

A boa notícia é que o Brasil não está assistindo parado. Em março, o TSE aprovou as regras de propaganda para as eleições deste ano, com bastante atenção à IA e às plataformas. As principais:

Rótulo obrigatório. Quem usa conteúdo gerado ou alterado por IA na propaganda precisa avisar, de forma clara, que ele foi fabricado ou manipulado e com qual tecnologia.

Silêncio sintético na reta final. Nas 72 horas antes e nas 24 horas depois da votação, fica proibido publicar ou impulsionar conteúdo novo feito com IA que use a imagem ou a voz de candidatos, mesmo com rótulo.

IA não recomenda candidato. Sistemas de inteligência artificial não podem recomendar candidaturas aos eleitores. É por isso que a Meta AI passou a recusar esses pedidos.

Plano de conformidade. Cada plataforma teve que entregar ao TSE um plano dizendo como vai cumprir as regras. O plano da Meta prevê, entre outras coisas, proibição de anúncios políticos no WhatsApp, rotulagem de conteúdo de IA e redução da distribuição de conteúdo falso.

Responsabilidade solidária. Durante o período eleitoral, as plataformas podem responder junto com o autor se não tirarem do ar rapidamente conteúdos como desinformação sobre o processo eleitoral ou deepfakes fora das regras.

E aqui vale o mesmo lembrete do Doctorow (do enshittification): escolha individual não resolve problema estrutural. A decisão da semana passada mostra que a regulação funciona quando alguém consegue fiscalizar. O desafio é que fiscalizar depende de dados que só as empresas têm, e o próprio NetLab mostrou que as ferramentas de transparência ainda falham.

E o que isso tem a ver com a sala de aula?

Tudo. Letramento em IA inclui entender que o feed não é um espelho do mundo, é uma seleção feita por alguém, com critérios que a gente não vê. Isso é aprender SOBRE IA. E o ensinar PARA a IA inclui formar gente que vai votar, muitos deles pela primeira vez, num ambiente assim.

E eu sei que falar de eleição na escola dá medo (com razão). Por isso a ideia aqui é analisar o mecanismo, nunca o candidato. A sala de aula não é palanque, mas pode e deve ser o lugar onde a gente aprende a perguntar como a informação chegou até a gente.

O que dá pra fazer, na prática

Use a Biblioteca de Anúncios da Meta em aula. Ela é pública e gratuita. Escolha um tema (não um candidato) e peça pros alunos investigarem: quem pagou esse anúncio? Está marcado como político? De onde veio o dinheiro? É a mesma pergunta que o NetLab fez, em escala de sala de aula.

Compare feeds. Peça que dois alunos com perfis diferentes busquem o mesmo assunto e comparem o que aparece. Depois pergunte: por que vocês viram coisas diferentes? Quem decidiu isso?

Teste a IA, como fizeram com a Meta AI. Peça a mesma coisa de formas diferentes e compare as respostas. Inconsistência não prova má intenção, mas é sempre um sinal para investigar.

Desconfie do que te deu raiva. Lembra do emoji que valia cinco curtidas? Conteúdo que provoca reação forte é justamente o que o sistema mais empurra. Antes de compartilhar, respira e busca a fonte.

Experimente o feed cronológico. No Instagram, a opção “Seguindo” mostra os posts de quem você segue em ordem de publicação. Não resolve tudo (a pesquisa mostrou isso), mas ajuda a perceber o quanto o feed padrão escolhe por você.

Denuncie. Encontrou desinformação sobre a eleição ou anúncio que imita o TSE? O TSE explica como denunciar e mantém a página Fato ou Boato.

Então, o algoritmo vota?

Não. Quem vota é você. Mas ele escolhe boa parte do que você vê antes de decidir, e faz isso com critérios que nem o TSE consegue enxergar sem uma ordem judicial. Isso não é motivo pra pânico, nem pra largar as redes. É motivo pra olhar o feed como a gente ensina os alunos a olhar qualquer texto: perguntando quem escreveu, pra quem e com qual interesse.

E você, já reparou em algum anúncio político estranho no seu feed nessa eleição? Ou já conversou com seus alunos sobre por que cada um vê uma coisa diferente nas redes? Me conta aqui nos comentários, eu quero muito saber como isso está chegando aí.

Referências

Compilado de artigos

Guia Básico: IA para Educadores

Um percurso completo, dos fundamentos da IA à prática em sala de aula, para que você não apenas acompanhe essa transformação, mas a lidere com propósito e segurança.

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Roberta Freitas

Professora

Roberta é educadora com foco em tecnologia educacional e interesse em novas tecnologias, inovação, gestão e capacitação de professores. Mestre em Estudos da Linguagem, graduada em Letras. Google Innovator, Google Trainer e líder do Grupo de Educadores Google do Rio de Janeiro. Atua no ensino de língua inglesa há mais de 15 anos e se especializou em integração de tecnologia educacional no currículo. Tem experiência e interesse em design instrucional, capacitação de professores, ensino remoto e híbrido, metodologias ativas, ensino de idiomas, integração de tecnologia educacional, cultura maker, realidade virtual e aumentada e inteligência artificial. É fã de moda, viagem e gastronomia.

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