No post sobre os insights do ISTELive 26, eu deixei um linkzinho quase escondido para o Profile of an AI-Ready Graduate, o novo perfil do graduado lançado pelo ISTE+ASCD. Prometi voltar nesse assunto com calma, e hoje é o dia rs.
Mas antes de mergulhar no perfil em si, preciso parar num conceito que talvez não seja tão familiar por aqui: o que é, afinal, um “profile of a graduate” (ou “portrait of a graduate”, dependendo de quem você pergunta)?
O que é um “perfil do graduado”
Pensa assim: durante décadas, a gente mediu o sucesso de um estudante basicamente por nota e frequência. Terminou o ensino médio com as notas em dia? Ótimo, está formado. Mas será que isso diz alguma coisa sobre se aquele aluno está de fato preparado para a vida, para o mercado de trabalho, para ser um cidadão atuante?
Foi essa pergunta incômoda que fez estados e redes de ensino nos Estados Unidos começarem a desenhar os chamados perfis (ou retratos) do graduado: um documento coletivo, construído junto com professores, famílias, estudantes e comunidade, que define quais competências e habilidades um aluno precisa desenvolver até o momento da formatura, e que vai muito além do conteúdo das disciplinas.
Coisas como pensamento crítico, colaboração, comunicação, criatividade e cidadania costumam aparecer nesses perfis. Hoje, pelo menos 21 estados americanos já adotaram algum formato de “Portrait of a Graduate”, e o movimento tem crescido tanto que Nova York recentemente decidiu abandonar seu tradicional exame estadual de 150 anos em favor justamente de um modelo baseado nesse perfil.
O ponto principal aqui é: um perfil do graduado não é conteúdo de prova. É como uma bússola. Um perfil bem construído não fica só no papel (ou na parede da secretaria rs). Ele deveria orientar currículo, metodologia e avaliação. E, segundo quem estuda o tema, o processo de construir esse perfil coletivamente já é, em si, tão importante quanto o documento final.
No Brasil a gente não tem uma tradição parecida com esse nome específico (o mais próximo talvez seja pensar nas competências gerais da BNCC), mas a lógica por trás é a mesma: o que realmente importa que um aluno saiba fazer quando sai da escola?
E agora chega a IA nessa conversa
Foi exatamente essa pergunta que o ISTE+ASCD decidiu revisitar, mas com um recorte específico: o que significa estar pronto para um mercado de trabalho moldado por IA?
O resultado é o Profile of an AI-Ready Graduate, atualizado recentemente. E o que eu mais gostei nele é a mensagem logo na abertura: preparar o aluno para a IA vai muito além de letramento em IA, significa saber fazer parceria com a IA para se tornar um pensador, criador e solucionador de problemas melhor. Ou seja: o documento não fica girando em torno de “usar ferramenta X” ou “aprender prompt Y”. Ele foca nas habilidades de ordem superior que emergem quando aluno e IA trabalham juntos.
O perfil está organizado em 6 grandes papéis que um estudante pode assumir ao usar IA. Vamos dar uma olhada?
Learner (Aprendiz)
O aluno usa a IA para definir metas de aprendizagem, montar planos para aprender novas habilidades, identificar estratégias para destravar quando fica empacado e buscar feedback direcionado para melhorar seu desempenho. Aqui entra, por exemplo, pedir para a IA fazer perguntas diagnósticas quando o aluno não entende bem onde está o próprio erro.
Researcher (Pesquisador)
O aluno usa IA para investigar e analisar temas de forma estratégica, avaliar afirmações e comparar fontes de informação. O objetivo é sair de uma pesquisa rasa (primeira resposta que aparece) para uma investigação mais sistemática, que reconhece pontos de conflito e de consenso entre diferentes fontes.
Synthesizer (Sintetizador)
Aqui o aluno usa a IA para juntar, remixar e refinar informação em formatos e níveis de complexidade que atendam às suas necessidades. Isso inclui transformar um texto denso em algo mais acessível (ou vice-versa, quando o aluno quer se desafiar), e mudar o formato da informação de áudio para texto, de texto para vídeo.
Problem Solver (Solucionador de problemas)
O aluno usa a IA como parceira de brainstorm, para esclarecer desafios, gerar novas ideias, explorar um leque amplo de possibilidades e avaliar soluções em potencial. Só que (e esse detalhe é importante), o aluno mantém o julgamento crítico sobre quais ideias da IA aceitar, adaptar ou simplesmente descartar. A IA amplia o pensamento, não substitui a decisão.
Connector (Conector)
Esse é um dos papéis que eu achei mais bonitos do perfil inteiro: o aluno usa IA para aumentar a colaboração humana, incluindo superar barreiras de idioma e encontrar pontos em comum entre perspectivas divergentes. Ou seja, a IA aqui trabalha a favor da conexão entre pessoas, não no lugar delas, traduzindo com sensibilidade cultural, simulando perspectivas diversas (como a de uma figura histórica) para ampliar empatia, sugerindo mentores e parcerias.
Storyteller (Contador de histórias)
O que isso conversa com o que eu já venho falando por aqui
Reparou como nenhum desses 6 papéis fala em “usar a ferramenta X” ou “dominar o prompt Y”? O perfil inteiro é construído em cima da ideia de que a IA deve funcionar como um apoio ao pensamento do aluno, nunca como piloto automático e é exatamente a distinção que eu trago desde sempre por aqui e também nas minhas formações.
E tem outra conexão direta com o que trouxe do ISTELive 26: lembra do conceito de screen value importa mais que screen time? Pois esse perfil é, na prática, uma tentativa de responder “que valor a IA está gerando” de um jeito concreto e organizado por competências, em vez de ficar só na discussão genérica sobre quanto tempo o aluno passa na tela ou no chat com a IA.
Ah, vale destacar também: o próprio ISTE+ASCD deixa claro que esse perfil de IA não substitui, mas se apoia nos ISTE Standards for Students, que já existiam antes e continuam guiando letramento digital e uso ético e criativo da tecnologia de forma mais ampla.
E no nosso contexto?
Aqui é onde eu sempre paro para pensar na realidade das nossas escolas. Documentos assim, tão bem estruturados, nascem quase sempre em contextos com outro nível de estrutura, formação continuada e recursos. Isso não invalida o valor do perfil, ele é ótimo material de referência, inclusive para conversas com gestão sobre o que priorizar quando o assunto é IA na sala de aula.
Mas acho que o que fica é: em vez de tentar importar o documento inteiro e aplicar de uma vez (lembra? um problema real de cada vez, não dez ferramentas na cabeça do professor), que tal escolher um único papel, pesquisador ou contador de histórias, por exemplo, e pensar em uma atividade concreta que desenvolva aquela competência específica com os alunos que você tem, na escola que você tem?
Agora me conta: de todos os papéis do perfil (Aprendiz, Pesquisador, Sintetizador, Solucionador de Problemas, Conector, Contador de Histórias) qual você já vê acontecendo (mesmo que informalmente) na sua sala? E qual parece mais distante da sua realidade?
PS: Se você quer ajuda para transformar essas competências em atividades concretas para a sua turma, com uma abordagem crítica, prática e centrada no humano, dá uma olhadinha no meu cursoIA para Educadores: Entenda, Use e Ensine.








