No último post aqui no blog, eu dei dicas de atividades para as primeiras semanas de aula. E agora eu quero falar sobre o resto do ano rs. Se você tem acompanhado as notícias sobre educação desde o início de 2025, certamente viu que o foco principal tem sido a Lei nº 15.100, que limitou o uso indiscriminado de celulares nas escolas. É natural que o assunto tenha ganhado foco, afinal, a gestão da sala de aula é um dos nossos maiores desafios diários. No entanto, se olharmos apenas para a proibição, corremos o risco de perder de vista uma transformação muito mais profunda e estrutural que está batendo à nossa porta.
A restrição do uso de celulares sem propósito pedagógico é, na verdade, apenas o primeiro passo de um projeto muito maior desenhado pela Resolução CNE/CEB Nº 2 de 2025: a implementação obrigatória da Educação Digital e Midiática em todo o currículo brasileiro até 2026. Agora, com as diretrizes plenamente em vigor, a Educação Digital e Midiática deixou de ser um projeto isolado para se tornar um compromisso obrigatório de todas as escolas brasileiras. O desafio de 2025 foi o planejamento; o de 2026 é a prática.
Entender essa nova resolução exige que a gente mude a nossa lente de observação. A Educação Digital e Midiática agora é uma área interdisciplinar que se sustenta em três pilares fundamentais que precisam estar presentes em todas as etapas da Educação Básica. Primeiro, temos a Educação Digital Escolar, que foca no exercício da cidadania e na cultura digital. Depois, a Educação Midiática, que é o que nos permite ensinar o aluno a ler o mundo através das telas, combatendo a desinformação. E, por fim, o Pensamento Computacional, que vai muito além de aprender a programar; trata-se de ensinar nossos estudantes a resolver problemas de forma metódica e sistemática.
O objetivo é preparar crianças e adolescentes para enfrentar riscos como a desinformação, o cyberbullying e o vício digital, transformando-os em usuários conscientes de sua presença online. Para nós, gestores e educadores, isso significa traduzir esses conceitos em ações que respeitem o desenvolvimento de cada etapa, desde a exploração sensorial e a computação desplugada na Educação Infantil até o debate sobre vieses de Inteligência Artificial no Ensino Médio.
E muito além da proibição dos celulares, o mais importante está na revisão do currículo que precisa acontecer ainda este ano. As redes têm autonomia para decidir se a Educação Digital e Midiática será uma disciplina específica, com tempo e professor dedicados, ou se será uma abordagem transversal diluída em todas as áreas do conhecimento. Ambas as escolhas têm seus prós e contras. Enquanto a disciplina específica garante uma profundidade técnica maior, ela corre o risco de isolar o tema. Já a transversalidade integra o digital ao mundo real de cada componente curricular, mas exige um esforço enorme de formação continuada para que todos os professores se sintam seguros em abordar o tema sem cair na superficialidade.
Independentemente do caminho escolhido, o foco deve ser a progressividade das aprendizagens.
Essa progressão precisa respeitar o desenvolvimento biológico e cognitivo de cada aluno. Na Educação Infantil, por exemplo, o foco é a exploração sensorial e o contato com o mundo físico, deixando as telas para situações absolutamente excepcionais. É o momento perfeito para abusarmos da computação desplugada, usando brincadeiras e lógica sem precisar de qualquer cabo ou Wi-Fi. Já nos Anos Iniciais do Fundamental, o digital apoia a alfabetização, enquanto nos Anos Finais o sarrafo sobe para a análise crítica dos algoritmos e das redes sociais. No Ensino Médio, o objetivo é o protagonismo juvenil pleno, onde o jovem não apenas consome, mas questiona os vieses da Inteligência Artificial e entende como a tecnologia molda o mercado de trabalho e a própria democracia.
A boa notícia é que ninguém precisa fazer sozinho ou começar do zero. Alguns estados e instituições que já pavimentaram esse caminho e oferecem materiais riquíssimos e gratuitos que servem como uma bússola para o nosso cotidiano. O estado de Sergipe, por exemplo, disponibilizou um Caderno Complementar ao Currículo que é uma aula de como alinhar a BNCC Computação à prática de sala de aula. O estado de Pernambuco lançou um guia metodológico muito rico para os Anos Finais do Ensino Fundamental. Ele funciona de forma similar ao caderno de Sergipe, trazendo orientações didáticas e exemplos de como integrar a cultura digital nas diversas áreas do conhecimento. Da mesma forma, o CIEB (Centro de Inovação para a Educação Brasileira) oferece um currículo de referência interativo onde você pode navegar pelas habilidades e encontrar sugestões de práticas e avaliações já prontas para serem adaptadas.
Se você está em busca de planos de aula, vale a pena explorar a seção de Recursos Educacionais Digitais da Nova Escola, que traz sequências didáticas passo a passo, pensadas tanto para quem tem laboratórios modernos quanto para quem trabalha com recursos limitados. Outra fonte interessante é o portal MEC RED, que reúne coleções de conteúdos abertos focados justamente nesse novo cenário da educação digital.
Além disso, o Ministério da Educação tem um ecossistema de apoio robusto, que vai desde guias práticos de planejamento até a plataforma AVAMEC, repleta de cursos gratuitos. Ferramentas como o Autodiagnóstico de Saberes Digitais são excelentes pontos de partida para descobrirmos onde precisamos de mais apoio. Estamos formando uma geração que não será apenas usuária de ferramentas, mas cidadãos capazes de construir soluções éticas para um futuro que já começou.
Bom, minha mensagem final para você é de encorajamento. A implementação dessas diretrizes é um convite para sairmos de uma postura meramente reativa ao uso do celular e assumirmos o papel de mediadores de uma cidadania digital responsável. É hora de focar no que realmente importa: a formação de estudantes que não sejam apenas consumidores de telas, mas cidadãos capazes de construir soluções éticas para um mundo conectado.
Como você está se sentindo em relação a esse prazo de 2026? Isso já repercutiu por aí? A sua escola já começou a discutir se vai seguir pelo caminho da transversalidade ou se teremos novas disciplinas na grade? Me conta aqui nos comentários!



