Uso da IA pelos estudantes e porque devemos nos preocupar

Um olhar sobre as últimas pesquisas sobre o uso de IA por adolescentes

É minha gente, a IA está aí e é difícil encontrar alguém que não esteja sentindo as consequências disso… Mas você já parou para pensar em como isso está afetando crianças e adolescentes?
Eu tenho pensado bastante nisso, pois escrevi um artigo com uma amiga sobre letramento em IA para alunos nos anos iniciais (disponível aqui) e também tenho falado muito com professores sobre o assunto. Não podemos simplesmente achar que nossos alunos não estão usando IA ou que não sabem do que se trata. Eles sabem sim, e muito bem. E estão sentindo também os efeitos dessa IA onipresente. Ferramentas como ChatGPT, Copilot e Gemini já fazem parte do dia a dia deles, misturando-se à forma como se comunicam, se divertem, se relacionam e, principalmente, aprendem.

Algumas pesquisas ajudam a gente a entender melhor o que esses alunos sentem e dizem. A 15ª edição da TIC Educação, pesquisa do Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), do Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br) mostra que, aqui no Brasil, a adoção de IA generativa é grande: sete em cada dez alunos do Ensino Médio que usam a internet já recorreram a essas ferramentas para trabalhos escolares. E se olharmos para os estudantes que usam internet no Ensino Fundamental e Médio, o número chega a 37%.

Mas, aqui acende um alerta: apesar do uso em larga escala, falta um guia. Apenas 19% desses estudantes afirmam ter sido instruídos por professores sobre como usar a tecnologia de forma crítica nas atividades de aprendizagem. Estão entendendo o perigo disso? Não adianta somente a gente querer punir os alunos por usarem IA para fazer seus trabalhos, enquanto educadores, precisamos guiar e orientar.

Por que eles usam IA? E por que a gente precisa ouvir?

Quando a gente fala sobre IA na escola, a primeira coisa que vem à mente é a cola. E sim, muitos deles admitem que usam para isso. Uma outra pesquisa, Perspectivas de adolescentes e jovens adultos sobre IA generativa, feita pela Common Sense Media, mostra alguns padrões de uso, entusiasmo e preocupações dos adolescentes.  “Usamos [a IA] para trapacear em tudo, desde a escrita de trabalhos de conclusão de curso até a descoberta de respostas para tarefas realmente difíceis“, disse um menino trans adolescente multiracial.

No entanto, a história não para por aí. Os alunos querem que a gente saiba que o uso dessas ferramentas vai muito além da trapaça. Para muitos, a IA é uma ferramenta para aprender e criar. Eles a usam para dar uma primeira pincelada nos trabalhos, como este adolescente explicou: “Nós a usamos para começar trabalhos e obter uma estrutura para um trabalho. Apenas editamos os detalhes e nuances para colocar meus toques pessoais nele.” (menino adolescente asiático)

Alguns a veem como um parceiro de estudo personalizado: “[A IA] pode fazer um plano de aprendizado especial só para você. [A IA] também pode ajudar com vocabulário“. (menino adolescente branco). A percepção deles é clara: “É a abordagem moderna para a aprendizagem.” (menina adolescente negra)

Além da escola, a IA se tornou uma companhia. Muitos recorrem a “AI companions”—sistemas de IA que simulam interações humanas—em busca de um “espaço livre de julgamento“. Uma adolescente explicou essa busca por apoio: “Nós usamos IA porque nos sentimos solitários e também porque pessoas reais são malvadas e julgam às vezes, e a IA não é.” (menina adolescente branca)

Esse acesso a um “amigo” que está “sempre disponível” fez com que um terço dos jovens buscasse a IA para conversar sobre assuntos sérios em vez de procurar pessoas reais. Outro ponto é que a IA os ajuda a fazer perguntas que teriam medo de fazer a um adulto. Como um adolescente disse, a tecnologia o ajuda a fazer perguntas “sem sentir qualquer pressão.” (adolescente não binário)

E a criatividade? A IA também é uma ferramenta para isso. Eles a usam para “escrever letras para músicas” e “fazer arte digital“, vendo a tecnologia como algo capaz de aumentar a imaginação da sua geração.

Entre o otimismo e o medo: O que os riscos nos dizem?

Apesar do otimismo, os alunos também sabem que a IA pode ser assustadora. Eles reconhecem os riscos à segurança e privacidade. Quase um quarto dos usuários de AI companions já compartilhou informações pessoais com esses sistemas. O mais preocupante é que esses dados podem ser retidos e comercializados para sempre, como alertam os termos de serviço das plataformas.

Eles também veem o lado sombrio do uso da tecnologia, como para bullying e mentiras. Um adolescente alertou: “Você pode usá-la para pegar a voz de alguém e fazê-la parecer que está dizendo algo que não disse” (adolescente branca LGBTQ+)

Diante de tudo isso, não dá pra gente ficar parado. O recado dos adolescentes para os adultos é direto: “pesquisem mais sobre esses novos conceitos e conversem com seus filhos sobre isso.” (adolescente branco) A nossa missão é educar, mas primeiro, precisamos entender.

Apresentação no ISTELive25 sobre Letramento em IA para estudantes
Apresentação no ISTELive25 sobre Letramento em IA para estudantes

A IA é uma ferramenta com muitas possibilidades para otimizar o aprendizado e explorar a criatividade, por exemplo. Mas ela só será segura se a gente estiver por perto para guiar o caminho. A IA não deve nunca substituir o contato e o relacionamento humano, e nós devemos mostrar a nossos estudantes o porquê.

Crianças usando tecnologia em aula
Crianças usando tecnologia em aula

Bom, mas você pode estar se perguntando: como eu posso começar? Eu sugiro ler os documentos da UNESCO, que falam sobre uma IA centrada no ser humano, dão caminhos de como podemos seguir com esse letramento em IA e também nos mostram um pouco dos desafios que podemos encontrar pelo caminho. Eu tenho falado bastante sobre o assunto por aqui, então deixo aqui alguns outros posts que podem interessar:

E você, como tem abordado a Inteligência Artificial com seus alunos? Me conta nos comentários!

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Roberta Freitas

Professora

Roberta é educadora com foco em tecnologia educacional e interesse em novas tecnologias, inovação, gestão e capacitação de professores. Mestre em Estudos da Linguagem, graduada em Letras. Google Innovator, Google Trainer e líder do Grupo de Educadores Google do Rio de Janeiro. Atua no ensino de língua inglesa há mais de 15 anos e se especializou em integração de tecnologia educacional no currículo. Tem experiência e interesse em design instrucional, capacitação de professores, ensino remoto e híbrido, metodologias ativas, ensino de idiomas, integração de tecnologia educacional, cultura maker, realidade virtual e aumentada e inteligência artificial. É fã de moda, viagem e gastronomia.